top of page


Slovíada
A escrita é a testemunha dos passos do Homem e, por esse atributo, é deixado ao julgamento da posteridade o conteúdo desse caso entre os pólos da vida. Eis a carta. Você, leitor dessa carta, servirá como pessoa incumbida de fazer dessa verdade anunciada a profecia futura. Não será sua tarefa julgar o médico ou o escritor, mas incorporá-los ao tecido da condição humana. Neste fim de século certamente você tem visto o Homem debruçar-se sobre o próprio Homem, na il

Marco Villarta
há 23 horas7 min de leitura


Ícone
Quando eu era criança, gostava de observar as formigas (re)construírem suas casas. Após forte chuva, pisada acidental ou, mesmo, o desabamento natural daqueles pequenos torrões de terra. Uma ou outra vez, via a formiguinha tentando levar uma folha ou uma pedra dcscomunal. Após um inconcebível esforço solitário, vinha outras tentar ajudar a companheira. Quase sempre esse esforço comunitário resolvia o problema e eu me dedicava em ver aquele objeto desproporcional entrar com mu

Marco Villarta
há 23 horas7 min de leitura


Medi(a)ções
Nos labirintos do centro de Buenos Aires me deparei com uma galeria. A maioria das lojas fechadas, como se fosse um depósito de coisas antigas e empoeiradas. Na última delas, havia uma espécie de antiquário, com as paredes repletas de variados relógios. Entrei, curioso. Mário, o dono, saudou-me com a musicalidade de um castelhano portenho, meio italianado. Com meu sôfrego portunhol, tentei responder à amabilidade. Por fim, perguntei pela razão de tantos relógios. Se eles aind

Marco Villarta
há 23 horas1 min de leitura


Quinquilharias
O que mais o encantava nos livros velhos eram os papéis que achava dentro. Números de telefone fixo com poucos dígitos, cartas pessoais, cartões comemorativos. Os sobrinhos recriminavam sua mania de comprar livros e mais livros. Mas era uma maneira que ele encontrou de disfarçar a busca por essas reminiscências fragmentadas. Peças desconexas de quebra-cabeças incompletos, a sobra das pedrinhas coloridas de quebrados caleidoscópios... Numa tarde muito q

Marco Villarta
há 23 horas2 min de leitura


Vólia
Preciso ir a um mercadinho, daqueles de bairro, pequenos, com tudo amontoado. Quando (e se) eu chegar lá, comprarei apenas uma cebola, um tomate, um pacote de linguine e uma laranja (que não vou chupar). Pagarei em espécie e pedirei como troco a minha vida de volta. Marco Villarta Lavras/MG, 04 de abril de 2025.

Marco Villarta
há 23 horas1 min de leitura


Forthún
Para Neusa Cardoso Na semiclaridade por entre os jarros de azeite, a poeira do ar brilhava como ouro em pó. Da distância do pátio, onde eu ensacava os grãos agora secos, via resplandecer seu vulto. Sua túnica clara, seu xale colorido, traspassado por sobre um ombro, sua cabeça coberta. No momento em que vi seus olhos, em discreta perplexidade para o além daquele depósito, senti que toda aquela atmosfera luminosa era mais que um lugar ou um tempo. Vi passados e f

Marco Villarta
há 23 horas1 min de leitura


Atonia
Sonhou estar imóvel em seu leito, lembrando-se de viagens antigas. Recordava, agora, dos acordes de um saxofone distante, em algum apartamento vizinho ao hotel barato em que havia se hospedado. Confundia, nas ruas, a cidade. Olhava para cima e via prédios cinzentos com ornamentos em art déco. Podia ser São Paulo ou Buenos Aires, Rio de Janeiro ou Goiânia. As largas avenidas se bifurcavam em estreitos corredores de grossas paredes de um impossível mosteiro do século XVI. No ac

Marco Villarta
há 23 horas2 min de leitura


Alfarrábio
Sempre gostei das casas velhas. A maioria das pessoas não sabe, mas as camadas do tempo vão amalgamando portais. Viver numa casa velha é transitar entre dimensões, fluir entre universos. Vou habitando uma casa assim até que me façam sair. Não faz mal. Me mudo para outra. Sou sempre taxado de excêntrico, porque pouco saio fora de seus portões. É que para mim a vizinhança não está no exterior, mas dentro. É falso dizer que vejo vultos ou que tenho alucinações. Dito

Marco Villarta
há 23 horas2 min de leitura


Folhas
As finas folhas da janela harmonizavam-se com as secas folhas lá de fora, no território estrangeiro do quintal. A casa antiga tinha vários pequenos quintais e alguns deles davam para lugar nenhum. Em criança eu sempre imaginava transpor a parede que separava cada um daqueles lugares de brincadeiras e de sonhos. Fechava os olhos e investia a mim mesmo de poderes de super-herói. Ficava invisível, me tornava capaz de atravessar paredes ou de ter visão de raios X. Na prática, eu

Marco Villarta
30 de ago. de 20254 min de leitura


Sitchás
No ateliê de trabalho havia aquela desordem ordenada de livros, cheios de marca-páginas e o quadro branco com garatujas de ideias e tarefas. Vez por outra, o gato dormia no canto da escrivaninha. Se o humano estava ali ou não, era indiferente. Talvez para os gatos, os lugares bastem para serem índices das pessoas. Talvez pelo cheiro, talvez pelo costume desses lugares estarem ocupados pelo alguém que lhes interessa. O player, réplica de toca-discos antigo, reproduzia um vinil

Marco Villarta
14 de set. de 20232 min de leitura


Dádiva
Tenho 74 anos e fui diagnosticado com uma doença senil degenerativa. Meu nome é... Albert, Aberto, Albertino... algo assim. Alguém da equipe médica que me assiste me sugeriu escrever sobre os acontecimentos de minha vida que eu possa achar interessantes ou pitorescos. Podem ser de meu passado remoto ou de meu passado recente. Sobre este último, já não tenho o que dizer ou lembrar. Minha memória recua cada vez mais, mas, nesse recuo, é como a onda da praia que volta com força,

Marco Villarta
16 de abr. de 20232 min de leitura


Prosa
Certa vez, viajando por uma cidadezinha do interior, parei numa padaria para tomar café. Ao meu lado, um homem de meia-idade, terminava, com o olhar distante, de comer seu pão com manteiga. Lembro-me que ele se levantou, pigarreou, olhou para o meu lado e comentou: __ Viver dói, moço. Do meu outro lado, um senhor bem idoso rebateu: __ Viver não dói, não. O que dói é o passar do tempo. Marco Villarta Lavras, 10 de fevereiro de 2016.

Marco Villarta
16 de abr. de 20231 min de leitura


Semitons
Foi na música que encontrou alguma consolação. Todos achavam que eram as letras, mas seu jeito de ouvir era para além das línguas humanas. Descobriu que havia na música, um compassado jeito de a alma se mostrar. Não eram notas, não eram pausas, nem algo propriamente musical. Descobriu o que paira no coração antes do corpo do artista tocar no que antecede o próprio executar. E quando a música de fora vem encontrar com sua metade perdida, bem lá no fundo do aqui dentro, há, num

Marco Villarta
8 de jun. de 20221 min de leitura


Utopia Planitia
Sentar no chão empoeirado e olhar para os altos cumes no limite do horizonte era realmente melhor que se sentir claustrofóbico no interior do laboratório de hidroponia. Eram quase seis da tarde e, no 14º mês, as noites demoravam mais para chegar. As duas luas, brilhantes e enormes, muito baixas no céu aparente, refletiam-se no chão silicado daquele vale. Não fosse o traje, indispensável, a impressão era que aquela luminosidade deixaria a pele cintilante, quase

Marco Villarta
5 de jun. de 20224 min de leitura


Agendamento
Marquei encontro com a felicidade na estação de trem. Combinei de viajarmos juntos. Mas tanto ela se atrasou que nem eu, nem o trem, estávamos mais lá quando ela chegou. Marco Villarta Lavras, 10 de fevereiro de 2016.

Marco Villarta
3 de jun. de 20221 min de leitura


A Rosa que Borges roubou de Paracelso
Na epopeia de Gilgamesh, uma serpente rouba-lhe a flor que concede a imortalidade. Devora-a, esgueira-se pelas fendas das rochas e deixa atrás de si apenas o herói perplexo diante de uma perda infinita. Em Borges, o tigre apodera-se do saber existir para dar uma palavra ao poema de Dante. Dante, descobre seu (próprio) desígnio. Ambos o perdem, porque a máquina do mundo é demasiada para a simplicidade de seus perplexos habitantes. O labirinto de linhas dos lugares por onde an

Marco Villarta
3 de jun. de 20221 min de leitura


Antigênese
Seu corpo nu era jovem como a Terra recém criada. A relva rala deixava restos de clorofila nos bichos que passavam, como telas ainda sem secar. Nos olhos que quase se cegavam de tanta claridade, o contorno das formas confundia-se com a profundidade dos seres que se apresentavam. A novidade do existir não tinha inaugurado a fome e a luta entre presas e predadores. Cada paraíso tem sua mecânica e seus mitos. Naquele mundo, destacado dos demais, a intensa perplexidade tecia os f

Marco Villarta
3 de jun. de 20222 min de leitura


Ratos no celeiro
Até pouco tempo eu não gostava de ratos... Pouco contato tive com eles, é verdade... por outro lado, é também correto dizer que os poucos não foram agradáveis. Sempre ratos grandes, ratazanas escuras, cinzentas ou vorazes. Um ou outro camundongo que passasse sorrateiro chegava até a despertar alguma simpatia. Camundongo é simpático até no nome. Além disso, parece molinho, flexível. Quase um bichinho de pelúcia. Do Mickey Mouse nunca gostei. Rato pernóstico, metido a sabichão.

Marco Villarta
3 de jun. de 20223 min de leitura


Anfitrião
Qual era mesmo a sua profissão? A tabuleta de papelão, com letras mal pintadas e escorridas, dizia ser “colecionador”. Na verdade, aceitava, por uns trocados, ir a casas que tinham sido de pessoas que moravam sozinhas. Após a morte, depois dos saques das coisas minimamente valiosas, restavam quinquilharias, sem nenhum valor para quem não viveu cotidianamente a história dos que se foram. Dizia prestar um favor às almas desencapadas (era esse o termo que usava). Que seu trabalh

Marco Villarta
2 de jun. de 20222 min de leitura


Meta
Um homem chega a seu destino quando o silêncio de dentro abraça o silêncio de fora. E nessa calmaria é como que não houvesse tempo. Mas há. Exatamente o impreciso tempo de uma espera sem angústia ou fustigação. Nesse estado, vida e morte confluem para um alívio, um doce não-saber, que já não inquieta mais. Não desassossega. Um homem chega a seu destino quando já não importa se há mais partes do caminho a percorrer. Alguns dirão que é cansaço. Extremo. Terminal. Outros, que é

Marco Villarta
1 de jun. de 20221 min de leitura
bottom of page