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Quando eu era criança, gostava de observar as formigas (re)construírem suas casas. Após forte chuva, pisada acidental ou, mesmo, o desabamento natural daqueles pequenos torrões de terra.

Uma ou outra vez, via a formiguinha tentando levar uma folha ou uma pedra dcscomunal. Após um inconcebível esforço solitário, vinha outras tentar ajudar a companheira. Quase sempre esse esforço comunitário resolvia o problema e eu me dedicava em ver aquele objeto desproporcional entrar com muita dificuldade no formigueiro.

No entanto, se a força coletiva se mostrasse sem resultados, pouco a pouco as colegas abandonavam a formiguinha ao seu destino impossível e solitário. A tarefa parecia mera teimosia e desperdício e decorria um tempo muito longo (no meu tempo de criança, que são seres sem tempo, já era muita coisa. Imagino que num absurdo tempo das formigas – ou na falta dele – devesse ser todas a eternidade).

Hoje, já crescido, considero com mais filosofia e método o que acontecia com aquelas formiguinhas obcecadas, que quase sempre morriam de cansaço antes de realizarem a tarefa. Penso que além do fato de terem uma estrutura social extremamente hierárquica, desigual, seres humanos e formigas compartilham de uma mesma característica mais sutil e, talvez, mais constitutiva do que seja a existência.

De alguma forma, aquelas formigas travavam uma experiência. Para além da rotina de seu formigueiro, a impossibilidade talvez lhes desse uma dimensão abstrata da individualidade e da morte. E o que mais me fascina hoje (e que, provavelmente já antevia inconscientemente a criança) é a incomunicabilidade desse momento de extrema solidão.

A experiência era (e é) instransponível para além dos limites do corpo. A formiguinha, abandonada pelas companheiras, jamais teria como transmitir a sensação de cansaço e de impotência frente a um propósito, ao mesmo tempo, impossível e sem explicação de sua finalidade.

Atualmente essas reflexões me fazem entender uma outra história, a de um velhinho que conheci também quando eu era ainda criança. Chamavam-no Seu Limundo. Encontrei-o certa vez sentado no banco da praça que ficava em frente da minha casa. Como, ao contrário da maioria das crianças, eu preferia a companhia dos mais velhos à presença de pessoas da minha idade, aproximei-me cauteloso daquele senhor de cabelos brancos e de rugas profundas. Embora parecesse  muito cansado, mantinha (percebo hoje) um ar de solenidade de quem está acostumado a tomar decisões difíceis, em nome de algum tipo de liderança (mas talvez isso se deva mais ao que vir a saber depois, do que propriamente ao que a criança pôde (ante)ver naquela face).

De fato, na época, o que me chamou mesmo a atenção foi um livro de capa escura, surrado e com as páginas meio amareladas, que Seu Limundo segurava displicentemente em uma das mãos. Foi um instante breve, antes que minha mãe me chamasse de volta para a rotina de uma criança. O velho olhou para mim, sorriu e me disse algo (achei que era uma espécie de saudação) com um sotaque muito forte de uma língua desconhecida para mim.

Tal fato teria permanecido como uma lembrança sem maiores consequências se viesse a ter notícias dele alguns anos depois. Lembro-me de ter perguntado a minha mãe quem seria aquele homem. Ela não fazia muita ideia e disse que parecida estrangeiro... e meio louco. Mas, o mais importante, me disse que ele sempre vinha do alto do morro. Talvez morasse num casebre meio abandonado que existia lá.

Anos mais tarde, quando eu já estava na faculdade, fui à casa de uma colega de curso para fazermos um trabalho. Depois de horas de leitura, discussão e cansaço, enquanto tomávamos café, ela resolveu me mostrar fotos e documentos antigos de sua família (eu havia dito a ela sobre o meu interesse na história da minha família e ela contou que também tinha esse tipo de curiosidade).

No meio dos papeis amarelados havia uma carta, meio amassada, como se alguém tivesse desejado jogá-la fora, mas tivesse se arrependido. Como me tivesse chamado a atenção, perguntei de quem era. Ela não sabia dizer, mas contou que um dos seus tios havia feito amizade com um velho estrangeiro que lhe havia deixado aquela carta.

Era um velho estranho que morava no alto da rua ***. Vivia sozinho num casebre abandonado. Parece que havia morrido há uns dez anos. Surpreso, disse que era a rua da casa da minha mãe.

Naquele instante, o fascínio de eu ter encontrado um nexo com a lembrança da infância me despertou uma grande curiosidade. Pedi para ler a carta e, finalmente, para fotografá-la. Minha colega não teve objeções, embora eu tenha percebido que havia ficado bastante surpresa com o pedido.

Na verdade, a carta era uma mistura de desabafo e de aconselhamento que o velhinho procurava dar ao tio da minha colega. Contava alguns fatos vividos num país distante, e alternava momentos de reflexão sobre o que havia acontecid com exortações de coragem ao amigo.

Cheguei a conversar com o tio da moça, escrevei cartas e emails para consulados, fui a bibliotecas e, mais recentemente, entrei em contato, em redes sociais, com pessoas que tinham ouvido falar desses episódios.

Meu velhinho, objeto de curiosidade, tinha sido uma figura controvertida. Não se sabia ao certo onde havia nascido, mas estava na Europa ao final das guerras de unificação no final do século XIX. Possuía aparência caucasiana, mas, assim como suas ideias, a ausência de documentos (ou o excesso deles, todos falsos) embaralhavam sua origem, e o único traço identificador, que seria a língua, também havia sofrido a história de seus deslocamentos.

Sabia-se de sua presença na Irlanda, Rússia, China, Argélia, Cuba e, em momento alternados, no Brasil. Afirmava-se até que havia tido algum tipo de contato com contemporâneos de Canudos e da Colônia Sicília.

No entanto, seu grande feito parece ter ocorrido em algumas vilarejos da África (ninguém sabe precisar o país – fala-se em Zanzibar). Por convicção política Seu Limundo era socialista (não um marxista,, pois compartilhava de ideias intermediárias entre o anarquismo e o cooperativismo) e acreditava na importância da conscientização política dos segmentos sociais (descartava os conceitos de classe e de massa).

Quando chegou à África, alojou-se numa região com alguns povoados, ligeiramente distantes uns dos outros, mas completamente isolados da capital e das regiões urbanas do país. Encontrou uma estrutura tribal rígida, em completa miséria e com chefes locais, que abusavam do poder. Os valores tradicionais estavam em decadência, pois as antigas crenças haviam sido combatidas pelas missões, mas os valores cristãos não haviam se estabelecido no cotidiano das pessoas.

Chegou discretamente, fez uma cabana longe de uma das aldeias, e começou a se fazer visto pelos habitantes, sempre mostrando uma atitude cortês, porém respeitosa e distante. Ao final de algum tempo, já estava instalado na aldeia.

Sua liderança foi se evidenciando de forma definitiva, mas restringia-se à praticidade com que enfrentava as obrigações diárias. Começou a pensar que já era chegada a hora de instaura uma atitude revolucionária naquela comunidade. Algo que a fizesse romper com o sistema estabelecido, buscando suas próprias alternativas e tomando suas próprias decisões.

Numa noite de terrível tempestade, e meio a pesadelos, achou ter descoberto o meio. Congregaria as pessoas em torno de valores religiosos (não exageradamente rígidos) e, a partir da coesão social conquistada, poderia ser criada uma estrutura comunitária. O próprio amadurecimento da comunidade se incumbiria de se libertar posteriormente das amarras da religião.

Limundo pensou que o conhecimento mágico seria o mais indicado para a conversão das pessoas e, para isso, além de ter analisado criteriosamente as habilidades que eles não tinham, aproveitou seus conhecimentos de física, geometria e química. Acrescentou a isso uma atitude meditativa, que equilibraria possíveis excessos de fanatismo e histeria.

Passou a controlar um pouco mais o que dizia e de sempre dar mais profundidade e mistério aos significados de sua fala e de seus atos. Confeccionou placas de argila onde escreveu, numa caligrafia geométrica, orações e conjurações matinais. Pendurou-as na frente de sua tenda e, a partir daí, todas as manhãs, levantava-se, vestido com uma roupa ritual que havia tecido, prostrava-se e murmurava olhando para as placas e depois para a própria palma das mãos voltadas para o céu.

A atitude inicial de estranhamento foi seguida por respeito e, por último, por uma curiosidade crescente dos membros da comunidade. Conseguiu, por fim, que passados alguns meses, tivesse discípulos, e que uma parcela da aldeia tivesse feito uma primeira reunião para exorcizar os males.

Obtinha progressos lentos, mas promissores. A aldeia já se reunia sempre sem a ausência de ninguém. No entanto, a passividade era ainda uma grande preocupação, principalmente se se considerasse que sua liderança substituía as iniciativas individuais. Numa noite cálida de lua cheia, sentiu a certeza de que sua ação se desviava de seus propósitos e, numa angústia profunda, surpreendeu-se rezando com uma fé convicta para uma imprecisa divindade, a quem pedia a libertação de seu povo (havia percebido que já se identificava com aquela gente, esquecendo-se que era estrangeiro?). Deu-se conta, num instante fugaz de iluminação, que eles continuavam reproduzindo as estruturas e que única diferença era que ele representava, agora, o modelo a ser copiado.

Seguiu-se um período de pregações ao povo sobre a necessidade de que eles se encontrassem individualmente com a divindade, de que a espiritualidade fosse uma experiência única e que, fruto dessa experiência, as reuniões em grupo servissem para encontrar saídas conjuntas para os problemas do cotidiano e da política.

A proposta foi aceita com fervor pela comunidade. Em todos os cantos da aldeia viam-se pessoas em estado de contemplação mística, enquanto desenvolviam as tarefas diárias. Porém, uma consequência inesperada surpreendeu Limundo. Nas reuniões comunitárias havia um silencia cada vez maior, não porque as pessoas não desejassem participar, mas, ao contrário, porque lhes cada vez mais impossível descrever as descobertas e visões obtidas no encontro com a divindade.

Uns ficavam fitando o rosto uns dos outros, tentando algo como um intercâmbio telepático, e falhavam em fazer contato com o humano a respeito do contato que haviam travado com o divino.

Começou a ocorrer uma dispersão, até que novos missionários e a polícia vieram desfazer aquele sonho (ou delírio?) coletivo. Limundo fugiu, mais uma vez, vagueando por outros  diversos países, dessa vez com o único objetivo de se refugiar, até que, velhos e cansado, com mais de 90 anos, acabou vindo parar no Brasil.

Pouco restava daquele homem quando a criança o viu no jardim. Talvez nada mais restasse quando o jovem (re)construiu sua história, numa intrincada teia de contradições que pediam uma interpretação que lhes desse unidade e sentido.

O velho que hoje organiza a memória e a reflexão (sem saber precisamente a diferença!) nos traços lineares da escrita tenta romper a solidão daquele trabalho, por fim entregue ao cansaço e à perplexidade. Não sei se a linguagem, através do nomes que atribuímos ao mundo (ou ao que entendemos que ele seja) possa ser esse elo de sentido que rompa a falta de finalidade da existência.

No caso daquele velhinho (esqueci de mencionar antes) nem sequer seu nome pôde cumprir tal desígnio. Soube pelo labirinto de lugares que percorreu deixou-se receber nomes que as pessoas lhe atribuíam. Limundo foi, provavelmente, o último deles.

 

Marco Villarta

Jacareí/SP, 21 de junho de 1997.

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Marco Villarta

Professor universitário, pesquisador, poeta, ensaísta, escritor, tradutor. Doutor em Letras. Nascido em São José dos Campos/SP - Brasil. Curioso pela vida e pelas pessoas, pela arte e pelos sonhos.

Membro correspondente da Academia Jacarehyense de Letras

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