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Slovíada

A escrita é a testemunha dos passos do Homem e, por esse atributo, é deixado ao julgamento da posteridade o conteúdo desse caso entre os pólos da vida. Eis a carta.

 

            Você, leitor dessa carta, servirá como pessoa incumbida de fazer dessa verdade anunciada a profecia futura. Não será sua tarefa julgar o médico ou o escritor, mas incorporá-los ao tecido da condição humana. Neste fim de século certamente você tem visto o Homem debruçar-se sobre o próprio Homem, na ilusão inútil de ir além de si mesmo.

 

            Pois bem... sabe-se que o médico sempre atendia em sua cada até a noite avançar. Se ele não tivesse esse costume, jamais teria ocorrido...

 

Doutor, pelo amor de Deus! Eu preciso do senhor, agora, hoje, ainda, antes que essa febre acabe comigo!

 

            Segundo alguns relatos, registros e mensagens, o escritor tinha a fisionomia profundamente alterada e levava um maço de folhas novas (mas amassadas). Sua camisa branca apresentava grandes manchas vermelhas.

 

(E os homens pensaram: “abre o ter ser para os deuses que a tua ousadia criou.”)

 

            Ao olhar para o estado do escritor, mais do que senso de dever, uma sensação de estar destinado a cumprir uma profecia, fez com que o médico cuidasse dele com um respeito quase religioso. Rasgou imediatamente a camisa, a fim de localizar a ferida e fazer a assepsia. Como não a encontrasse, olhou perplexo para o escritor.

            Não é o meu sangue, doutor... é o de todos. Abaixou a cabeça e sorriu maliciosamente.

            Aquela substância vermelha realmente era sangue, mas de quem...? Que se tratava de um paciente profundamente perturbado já não restava mais dúvida alguma. Mas do que se tratava realmente? Parecia um crime. Mas não havia elementos para saber.

            O médico, antes de pensar em notificar as autoridades policiais, fez com que ele se deitasse na maca e pediu que se acalmasse. Tomou-lhe o pulso, a pressão, viu a saturação, verificou a temperatura, examinou as pupilas, a língua, apalpou-lhe o abdômen. A musculatura estava extremamente enrijecida, como se tivesse tido um espasmo violento, um trauma, um susto, enfim, algum tipo de choque. Olhou com mais atenção para a pele e percebeu gotículas de sangue porejando aqui e ali. Petéquias (suando sangue?) Poderia ser dengue, mas também poderia caracterizar uma reação psicossomática.

            Você vai ficar em observação... vou colocar no soro. Amanhã de manhã vou pedir para você fazer uns exames. Procure relaxar, está bem?

            Eu não vim por minha causa, doutor. Apenas fui chamado. Vim como mensageiro do que está reservado para você.

            O que realmente aconteceu naquela noite de encontro e diagnóstico ninguém sabe dizer precisamente. A perturbação do escritor atraiu o interesse clínico do médico (isso era indiscutível), fosse pelo zelo e pelo dever profissional, fosse pela raridade do caso naquela cidadezinha esquecida. Mas talvez houvesse, por debaixo desses motivos óbvios, razões insuspeitáveis, até mesmo para o médico.

            Acredite, leitor, que tudo se destinou acontecer na incerteza e no desconhecido. O que posso dizer é que o escritor falou ao médico sobre sua loucura e sobre ideias estranhas, que pareciam ser que o mundo se encontrava embaixo dos seus lençóis, agitando-se e projetando imagens esféricas e universais que o perseguiam em qualquer lugar, em todos os rostos.

            Sei que vou morrer. Como posso continuar vivendo assim? Não consigo mais escrever, doutor. O mundo é tudo em todas as partes, e essa totalidade me esmaga, me sufoca. Sinto a angústia de estar infinitamente completo. Não há mais o que dizer...

 

(E os homens olharam silenciosos. O silêncio era o veredito da vida)

 

            Durante muitas noites (quantas teriam sido?) aquele médico recebia o escritor e ouvia os conflitos absurdos do artista. Seu senso clínico, embora muito aguçado, já não conseguia imaginar o que aquela loucura, mas de alguma forma, era alheia à documentação médica estabelecida. Parecia um tipo bastante incomum de afasia. A linguagem ia se desfazendo, juntando-se algo mais, talvez uns traços de esquizofrenia. O médico era clínico geral e seus conhecimentos de psiquiatria não davam conta da complexidade da situação. Além do mais, a lucidez do escritor sobre a própria loucura era um elemento paradoxal que tornava inútil cada tentativa de compreender e organizar aquele mundo efervescente e cintilante.

            Mas... se você escreve para alcançar algo e se você já alcançou tudo, o que ainda te angustia?

            O escritor passou nervosamente as mãos nos cabelos, riu e sacudiu a cabeça. Porque ainda não chegou a hora... se me dirijo a todos, preciso ouvir todas as vozes, conhecer todas as compreensões...

 

(E os homens falaram: “Você nasceu do pó das trevas; é seu compromisso desconhecer sua origem: essa é sua culpa.”)

 

            Saiba, caro leitor, que seis meses se passaram, pontilhados de noites densas, naquele monólogo e no desespero de que ele pudesse ser interpretado, diagnosticado.  É também verdade que a esposa do médico havia percebido a estranheza do caso e havia passado a colaborar com o marido, observando e anotando meticulosamente cada detalhe, até ser brutal e misteriosamente agredida, num acesso de loucura, por aquele guarda que era novo na cidade.

            Como se sente hoje?

            A hora se aproxima. Já não preciso sofrer o delírio que transpira dessa bolha transparente. Você não sabe, porque é médico, nem eu porque sou escritor. Foi a Palavra... a Palavra inventou o Homem.

            A partir desse ponto, os testemunhos são meio confusos, mas, sem dúvida, o médico passou muito tempo com fortes dores de cabeça, embora sua disposição para o trabalho crescesse cada vez mais.

            O escritor teria se mudado para um lugar muito distante, sem dar notícias (alguns dizem que tinha sido internado em um hospício – o que era comum naquela época). Diziam que era em outro Estado, mas ninguém conseguiu confirmar isso. A aparência do médico era cada vez mais estranha. Correspondia-se com colegas dos grandes centros e dos grandes hospitais de pesquisa, mas tudo continuava inconclusivo. Praticamente confinado naquela minúscula cidade do interior, não havia recursos para levar o escritor para um centro médico mais especializado.

 

(E os homens sorriram: “Essa é a sua culpa, somente essa. E sua culpa é não ter pensado que o conhecimento é uma traição.”)

 

            Assim, aos poucos, tudo foi fugindo do controle do médico. Como? A resposta é simples. As receitas que ele prescrevia começaram a ficar estranhas, como se ele já não pudesse dominar as palavras que escrevia. Chegou-se a dizer que um de seus pacientes haveria recebido, em lugar de prescrição de remédios, um poema.

            Você voltou! Que bom! Tenho algumas perguntas...

            Mas eu não estou aqui. Nem você está.

            Mas parece tão real...

            Real é sua submissão à Palavra.

            Foi o alarme mais sério. Conversava com as sombras, parecia entrar em transe ao prescrever as receitas, já não dormia um minuto.

 

(E os homens proclamaram: “Vá depressa” Corra, que você entenderá a extensão do seu medo.”)

 

            A luz de led envolvia a perplexidade do homem grisalho que ficou sentado ali, febril. Foi súbito. Seus olhos contraíram-se duramente, a cabeça pareceu oscilar rapidamente e um tremor convulsivo subiu do meio do peito até as narinas ofegantes. Recordou-se de uma música que tinha ouvido quando criança e havia esquecido completamente. Sentiu seus olhos ofuscados pelos holofotes. Havia um murmúrio crescente. Doutor, o senhor está bem? Bisturi...

O instrumento rasgou lentamente a pele e foi seccionando-a, enquanto o sangue jorrava e os nervos e músculos se expunham em suas entrelinhas. Havia escrito a primeira frase. A caneta vermelha tremia nervosamente em suas mãos, o suor escorria pelo rosto e encharcava a máscara de algodão. Pronto. Havia extirpado o tecido doente e o metabolismo iria se regenerar, permitindo ainda o brilho dos olhos. Faltava a sutura. Completou o ciclo. Era o mundo.

            Deixou que a enfermeira fizesse o curativo, enquanto examinava, contra a luz, o tecido necrosado, depositado em uma bandeja. Boquiaberto, percebeu estranhas inscrições, como que apagadas. Talvez o palimpsesto da criação. O rascunho de Deus”

 

(E os homens cantaram: “Venha, você que venceu a vida... viveu sozinho. Caminhe cego para essa luz sem dor e sem sombra.”)

 

            Vocês têm o direito de conhecer o desfecho do caso (se é que existem explicações que sejam capazes de satisfazer os mistérios...). Vocês do tempo que vem e que já passou. O médico abandonou seu trabalho e, levando os blocos de receitas, sabia que sua missão era receitar a Palavra. Vocês acreditam que ele mandou derreter a aliança de casamento para fazer um pequeno e tosco estilete de ouro, em forma de caduceu?

            Serenava lá fora... ele saiu trôpego, mochila nas costas. Estava com a camisa branca manchada de vermelho e levava um maço de folhas novas (mas amassadas). Sua fisionomia ansiosa e seu olhar indefinidamente fixo...

 

(“O mundo é uma esfera de luzes... o Universo são seus olhos, olhando no espelho... agora e sempre você sabe, conhecer e vive.”)

 

            Parou sob a penumbra da torre da igreja. Ao seu redor formou-se um círculo de pessoas curiosas. As luzes da cidade erguiam-se cada vez mais, como mãos que brincavam com as sombras projetadas sobre os rostos e os corpos próximos. Deram-se as mãos e começaram a rodar, dançar e cantar ao redor dele Olhou para a esfera lunar, que agora parecia um espelho, e viu em si não mais o médico, mas uma multidão de pessoas, que, em diferentes épocas e lugares, tinham estado a serviço da Palavra. Compreendeu que cada um desses havia sido uma espécie de escritor. Inclusive ele. Sentiu um gosto salgado na boca.

            Subitamente a Palavra o arrebatou e elevou. Pairou sobre a mente cansada a explicação insuficiente e o medo da morte. Mergulhou.

            Não há versão conclusiva sobre o desfecho da história (bem como de qualquer de suas partes...)

            Sabe-se que vagava pela região um andarilho, vestido de branco, de olhos vendados, traçando escritas no ar. Segundo um mendigo bêbado, que vez ou outra aparecia na cidade, o médico teria dito a ele que se sentia indigno de ver o mundo depois de ter conhecido intimamente a Palavra que o gerou.

            Do andarilho de branco, não se sabia sequer se havia mesmo existido. Quanto mais se tinha sido médico ou escritor...

 

“Palavra da Eternidade:

 

            A escrita é testemunha dos passos do Homem e, por esse atributo, é deixado ao julgamento da posteridade o mistério, entre seus polos. Eis a vida.”

 

Marco Villarta

Jacareí/SP, 23 de agosto de 1987.

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Marco Villarta

Professor universitário, pesquisador, poeta, ensaísta, escritor, tradutor. Doutor em Letras. Nascido em São José dos Campos/SP - Brasil. Curioso pela vida e pelas pessoas, pela arte e pelos sonhos.

Membro correspondente da Academia Jacarehyense de Letras

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