top of page


KOTENOK*
Para Arthur Cardoso meus olhos atentos enxergam (n)o escuro das noites internas, externas sou místico, é o que dizem supersticiosos pretextos. Nonsense. olho o mundo se mover. Apenas. porque na placidez da displicência aparente sou puro devir... sou egípcio, siamês ou persa mas não me importo: nomes não significam acusam-me bipolar, de indecifrável humor. mas os liames são mesmo miméticos o hermetismo, simplesmente, é mistério de não estar nem aí lugares são falsas certezas s

Marco Villarta
10 de out.1 min de leitura


Breves considerações de um gato
Para Arthurzinho Sou um gato. Para os da minha espécie não preciso me apresentar. Mas os humanos são exigentes com relação às formalidades. Claro que não sou quem escreve esse texto. Tive a paciência de procurar um humano que entendesse meus miados, meu ronronar e meu olhar. Coisa rara. Apesar da prepotência típica da espécie, não têm muita perspicácia. Inventam sobre nós um tanto de bobagens que somente a nossa preguiça diária torna capaz de suportar. Sete vidas? Sermos ap

Marco Villarta
10 de out.2 min de leitura


Gatoiesis
Para Arthurzinho enquanto reviso poemas o gato passeia pela cama indiferente à poesia? não sei o andar dos felinos o jeito de ser doméstico dos gatos é pura poesia coreografia perfeita divina geometria a poesia não se desconhece ela acontece. Marco Villarta Lavras, 25 de setembro de 2026.

Marco Villarta
25 de set.1 min de leitura


Itinerário IV
andou perto do fim equilibrista de si sem redes de proteção escalou escarpas íngremes colinas as mãos, nada mais velejou pelas tormentas sem cais, sem portos tanto movimento fez compreender pra chegar não basta dobrar velas (a)chega-se ao destino cumprindo, rota, estrada sem direção outras dimensões limites fluidos certezas vãs. Marco Villarta Lavras/MG, 23 de setembro de 2026.

Marco Villarta
23 de set.1 min de leitura


Litúrgica
areia se move sob meus pés não menos areia, arena área ária levito em redemoinho Saci no meio do vendaval alinhavo desagravo quanto eu sonhei saudades tantas mantas em convulsão mantras raios gama Procissão Marco Villarta Lavras/MG, 22 de setembro de 2026

Marco Villarta
22 de set.1 min de leitura


Ontologia
Para meu filho Rafael ser filho ser pai presente dádiva experiência de viver o sublime temer pelos passos torcer pelo sorriso ansiar pelo abraço esperar pelo ficar junto ser filho ser pai serena celebração vida sentido tardia, mas comemorada forma de ser feliz. Marco Villarta Lavras, 27 de agosto de 2026.

Marco Villarta
27 de ago.1 min de leitura


Poema semântico
em língua api luna quer dizer mão em latim, api é "para a abelha" nas Novas Hébridas os falantes de api veem no céu astro arredondado, mutável os romanos chamam de luna Que nome terão os nomes usados por nós para os nomes que esses nomes tiveram antes? Marco Villarta Jacareí/SP, 01 de junho de 1999

Marco Villarta
24 de ago.1 min de leitura


Cantiga
resvalo seu seios sei os seus medos amamento-os la(c)tentes, sensíveis impossíveis verdades sugadas da terra pólen de abelhas espalhado na cama mergulho no poço (posso?) sonho a semente sinto somente enxergo, enxerto a visão minha das coisas nos olhos (dos) outros vacilo vazio acima de mim e do medo me meto no emaranhado que teço permeio seus infinitos segredos ainda bêbado da doçura em excesso enxugo o sexo: estremeço na noite que desce nos corpos adivinho seu sono sou seu a

Marco Villarta
24 de ago.1 min de leitura


Senciência IV
A dor que aperta o peito É efeito do que desperta No jeito de desaprender Como é a doçura da vida Sem a ternura compartida Sem a consentida plenitude E se ilude quem imagina Que fascina alguém ainda Para além do que se viveu Pois o infinito não se divide Não se esgota, nem regride A menos do que o inimaginável Que a inefável experiência Da senciência inexplicável De viver um divino amor. Marco Villarta Lavras/MG, 05 de julho de 2022.

Marco Villarta
21 de ago.1 min de leitura


Cantor
Há menos ou mais Que o infinito? Quantos infinitos Caberão nos sonhos Habitarão os dias Faltarão Na inexata matemática Dos (a)deuses Quantos seres Contarão estrelas Esquartejarão seus mundos Na inútil busca Do último átimo da última face em que nos reconheceremos iguais a nós mesmos autocriadores pobres de nós ínfimos grânulos mancha de fino regolito nos espelhos dentro de espelhos buscamos o canto dos anjos no infinito sideral porém o que está em cima é símile do embaixo nos

Marco Villarta
21 de ago.1 min de leitura


Grise
cinzas no chão cinzas no ar cinzas na alma pó devolve ao pó o que o fogo consumiu o peito não respira sufocado pelos finos grânulos memórias cinzas prelúdio e fim cinzas do tempo cinzas ao vento cinzas de mim. Marco Villarta Lavras, 17 de agosto de 2026.

Marco Villarta
17 de ago.1 min de leitura


Slovíada
A escrita é a testemunha dos passos do Homem e, por esse atributo, é deixado ao julgamento da posteridade o conteúdo desse caso entre os pólos da vida. Eis a carta. Você, leitor dessa carta, servirá como pessoa incumbida de fazer dessa verdade anunciada a profecia futura. Não será sua tarefa julgar o médico ou o escritor, mas incorporá-los ao tecido da condição humana. Neste fim de século certamente você tem visto o Homem debruçar-se sobre o próprio Homem, na il

Marco Villarta
31 de jul.7 min de leitura


Ícone
Quando eu era criança, gostava de observar as formigas (re)construírem suas casas. Após forte chuva, pisada acidental ou, mesmo, o desabamento natural daqueles pequenos torrões de terra. Uma ou outra vez, via a formiguinha tentando levar uma folha ou uma pedra dcscomunal. Após um inconcebível esforço solitário, vinha outras tentar ajudar a companheira. Quase sempre esse esforço comunitário resolvia o problema e eu me dedicava em ver aquele objeto desproporcional entrar com mu

Marco Villarta
31 de jul.7 min de leitura


Medi(a)ções
Nos labirintos do centro de Buenos Aires me deparei com uma galeria. A maioria das lojas fechadas, como se fosse um depósito de coisas antigas e empoeiradas. Na última delas, havia uma espécie de antiquário, com as paredes repletas de variados relógios. Entrei, curioso. Mário, o dono, saudou-me com a musicalidade de um castelhano portenho, meio italianado. Com meu sôfrego portunhol, tentei responder à amabilidade. Por fim, perguntei pela razão de tantos relógios. Se eles aind

Marco Villarta
31 de jul.1 min de leitura


Quinquilharias
O que mais o encantava nos livros velhos eram os papéis que achava dentro. Números de telefone fixo com poucos dígitos, cartas pessoais, cartões comemorativos. Os sobrinhos recriminavam sua mania de comprar livros e mais livros. Mas era uma maneira que ele encontrou de disfarçar a busca por essas reminiscências fragmentadas. Peças desconexas de quebra-cabeças incompletos, a sobra das pedrinhas coloridas de quebrados caleidoscópios... Numa tarde muito q

Marco Villarta
31 de jul.2 min de leitura


Vólia
Preciso ir a um mercadinho, daqueles de bairro, pequenos, com tudo amontoado. Quando (e se) eu chegar lá, comprarei apenas uma cebola, um tomate, um pacote de linguine e uma laranja (que não vou chupar). Pagarei em espécie e pedirei como troco a minha vida de volta. Marco Villarta Lavras/MG, 04 de abril de 2025.

Marco Villarta
31 de jul.1 min de leitura


Forthún
Para Neusa Cardoso Na semiclaridade por entre os jarros de azeite, a poeira do ar brilhava como ouro em pó. Da distância do pátio, onde eu ensacava os grãos agora secos, via resplandecer seu vulto. Sua túnica clara, seu xale colorido, traspassado por sobre um ombro, sua cabeça coberta. No momento em que vi seus olhos, em discreta perplexidade para o além daquele depósito, senti que toda aquela atmosfera luminosa era mais que um lugar ou um tempo. Vi passados e f

Marco Villarta
31 de jul.1 min de leitura


Atonia
Sonhou estar imóvel em seu leito, lembrando-se de viagens antigas. Recordava, agora, dos acordes de um saxofone distante, em algum apartamento vizinho ao hotel barato em que havia se hospedado. Confundia, nas ruas, a cidade. Olhava para cima e via prédios cinzentos com ornamentos em art déco. Podia ser São Paulo ou Buenos Aires, Rio de Janeiro ou Goiânia. As largas avenidas se bifurcavam em estreitos corredores de grossas paredes de um impossível mosteiro do século XVI. No ac

Marco Villarta
31 de jul.2 min de leitura


Alfarrábio
Sempre gostei das casas velhas. A maioria das pessoas não sabe, mas as camadas do tempo vão amalgamando portais. Viver numa casa velha é transitar entre dimensões, fluir entre universos. Vou habitando uma casa assim até que me façam sair. Não faz mal. Me mudo para outra. Sou sempre taxado de excêntrico, porque pouco saio fora de seus portões. É que para mim a vizinhança não está no exterior, mas dentro. É falso dizer que vejo vultos ou que tenho alucinações. Dito

Marco Villarta
31 de jul.2 min de leitura


Sincretismo
Havia um ar de mistério nos olhos dos gatos aquela noite... Não havia lua, não havia quase um céu, antes de tudo virar tantas canções, guardadas dentro dos livros velhos, dos manuais de magia. A nudez nas praias era como os sonhos que se escondem sem se repetir, meio mitos, um pouco de fome das brisas. A sopa estava quente... Começou uma tempestade esverdeada, e os relâmpagos eram a coreografia dos pensamentos, das roupas jogadas no chão. Ele coçou a barba e olhou para as nu

Marco Villarta
31 de jul.2 min de leitura
bottom of page