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Sincretismo

Havia um ar de mistério nos olhos dos gatos aquela noite...

Não havia lua, não havia quase um céu, antes de tudo virar tantas canções, guardadas dentro dos livros velhos, dos manuais de magia.

A nudez nas praias era como os sonhos que se escondem sem se repetir, meio mitos, um pouco de fome das brisas. A sopa estava quente...

Começou uma tempestade esverdeada, e os relâmpagos eram a coreografia dos pensamentos, das roupas jogadas no chão. Ele coçou a barba  e olhou para as nuvens no movimento rápido do que já não é. O som rouco da incompreensão ecoou vagarosamente, vertendo quente e vermelho dos lábios feridos. Que os deuses abençoem esse sacrifício...

Uma mulher anônima, frágil, mantinha a cabeça rescostada em seu peito, brincando de tecer seus pelos, num silêncio sagrado. As pedras aguardavam o ritual do sol. Uma procissão de sombras passou. Eles, reverentes, se beijaram, e o vento assobiou nas folhas. O disco acabou...

Amanheceu a glaciação... a era das águas... quero beber dos seus seios, estéreis. O copo de vinho tombou sobre o tapete e escuro.

As unhas cravaram a terra, famintas e sensuais. No fundo do poço a roldana repetiu as notas de todos os segredos, os sons de todos os mistérios, mas eles estavam dentro de si. O orvalho dos corpos escorregou pelas pétalas das flores do jardim. O soluço abafado acordou o cãozinho indefeso, sem latir.

As imagens e os cristais se perderam no pequeno buraco... já não eram redondas, nem estrelas... os dentes cerraram-se, amarelos e pontudos.

As mãos se tocaram... acenderam uma fogueira... a fumaça brincava com as sombras. A chuva caiu. A semente havia germinado... na água que escorria sobre a os seus corpos a luz refletia...

Lançou-se sobre o animal feroz. Gastou suas garras na subida íngreme, apoiando-se nas frestas das rochas. Competiu com o mato solene para sentir a grandiosidade do vento e da altura. Reclinaram o corpo em sinal de respeito. As cinzas em redemoinho passaram apressadas e ele a arrebatou aos mais profundos abismos e às mais concebíveis alturas.

Enquanto os gatos dormiam, um vento místico sussurrou por todas as portas, até sem perder sem voz.


Marco Villarta

Campinas/SP, 08 de junho de 1989.

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Marco Villarta

Professor universitário, pesquisador, poeta, ensaísta, escritor, tradutor. Doutor em Letras. Nascido em São José dos Campos/SP - Brasil. Curioso pela vida e pelas pessoas, pela arte e pelos sonhos.

Membro correspondente da Academia Jacarehyense de Letras

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