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Sincretismo
Havia um ar de mistério nos olhos dos gatos aquela noite... Não havia lua, não havia quase um céu, antes de tudo virar tantas canções, guardadas dentro dos livros velhos, dos manuais de magia. A nudez nas praias era como os sonhos que se escondem sem se repetir, meio mitos, um pouco de fome das brisas. A sopa estava quente... Começou uma tempestade esverdeada, e os relâmpagos eram a coreografia dos pensamentos, das roupas jogadas no chão. Ele coçou a barba e olhou para as nu

Marco Villarta
há 24 horas2 min de leitura


Ruach
Primeiro Ecrã Nas praças os pombos andavam tranquilos. Seus pés pequenos e seu andar cambaleante preenchiam o vazio dos cafés. Os intervalos de tempo, espaçados, proviam, aqui e ali, figuras humanas se deslocando sem pressa. A nitidez do sol em tarde que acabava recobria silhuetas silenciosas. A densidade da brisa parecia, aos poucos, sufocante, ir lapidando o peso das figuras esquálidas. Ar não havia. Quase. Não que não tivesse, por agora,

Marco Villarta
há 6 dias3 min de leitura


Inventário
Trâmites pós-funeral. O silêncio da casa. Agora não só para ele. Finalmente, tinha passado a fazer parte dos surdos murmúrios diários. O remexer das pessoas pretensamente próximas (afinal, qual a escala da distância?). Arqueologia confusa essa de desmontar o âmago. Um quê de profanação. Muitas gavetas, fotos aqui e ali. Objetos antigos. Apego? Um receio de se livrar das memórias talvez grudadas nas pequenas bugigandas guardada

Marco Villarta
6 de jul.1 min de leitura


Sinestesias
Na sua rústica casa, João de Ballina estava sentado à beira do fogão a lenha. Na panela de ferro começava a borbulhar o guisado de nacos de carne com batatas, cenouras, beterrabas e berinjelas. O calor das chamas ajudava a aquecer o corpo cansado da lida no campo. As achas de lenha crepitavam e, de alguma maneira, as notas dos ritmados estalos da madeira que se consumia, fazia coro às notas do odor que emanava da panela, um vapor que recendia um pouco dos ingredientes, um pou

Marco Villarta
5 de jul.3 min de leitura


O Pinscher e a Tartaruga
Para o Pedrinho Pelo gramado de uma rica chácara, ia para cá e para lá um Pinscher inquieto, com seu jeito saltitante e errático. À sombra de uma árvore, encontrou o que parecia ser uma pedra cheia de incrustações. O Pinscher, fascinado, estendia o focinho em direção à suposta rocha, avançava e recuava. Depois de alguns minutos, de dentro da “pedra”, saiu um pescoço enrugado, com olhos que se abriam e fechavam lentamente. Diante de tal aparição, o Pinscher pôs-se a latir e tr

Marco Villarta
16 de abr. de 20231 min de leitura


Argosíada
No momento em que Ulisses pisou novamente o solo de Ítaca, sua mulher Penélope havia de ter envelhecido, seu pai Laertes de ter falecido, Telêmaco já não seria seu menino, mas um homem que ele desconheceria. O último olhar de seu cão Argos foi o efêmero momento em que provavelmente não se sentiu estrangeiro em sua própria terra. Marco Villarta Lavras, 10 de fevereiro de 2023.

Marco Villarta
16 de abr. de 20231 min de leitura


Caduceu
Em textos apócrifos, uma suposta mitologia narra educativa história. Um discreto e sombrio mortal aproxima-se, cabisbaixo e silente, do altar do deus. Esperas ser imortal? Inquire o supremo. Sim. E qual seu merecimento? Nenhum... viver a ausência de quem muito amei. O deus, astuto, compreende que a súplica é, a um só tempo, prêmio e castigo. Os deuses são estranhos à compreensão dos seres abaixo dos céus e acima das águas, diz a lenda. Marco Villarta Lavras, 01 de julho de 20

Marco Villarta
8 de jun. de 20221 min de leitura


Uroboro
Era um feriado emendado. Um adolescente vem mais cedo para um final de semana na casa dos pais. Um tempo sem tempo faz prenunciar, num ciclo, o que somos hoje. No ontem o amanhã acontece sob a forma de um impacto. Pressentimento é sentir antes ? É conhecer o que não se pode evitar ? O menino nunca soube dizer. Porque essas coisas não se dizem. O encontro entre os seres são sempre misteriosos. O menino nunca soube o porquê do encontro. No entanto, o que forjou o homem foi o ca

Marco Villarta
2 de jun. de 20221 min de leitura


Bliêdna*
Pisou o solo amarelecido no poente lento e róseo. Não fosse o seu treinamento, acharia que o aroma almiscarado provinha de alguma rara flor. Mas não havia flores. No horizonte monótono somente rochas e poeira. Apesar de seus músculos ainda fracos, fez o esforço programado e deu alguns passos, observando as marcas de sua bota na fina areia, quase talco, que recobria o chão. O movimento seguinte foi instintivo. Olhou para o céu, mas a semiclaridade do entardecer não permitia ve

Marco Villarta
1 de jun. de 20223 min de leitura
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