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Sinestesias

          

            Na sua rústica casa, João de Ballina estava sentado à beira do fogão a lenha. Na panela de ferro começava a borbulhar o guisado de nacos de carne com batatas, cenouras, beterrabas e berinjelas. O calor das chamas ajudava a aquecer o corpo cansado da lida no campo. As achas de lenha crepitavam e, de alguma maneira, as notas dos ritmados estalos da madeira que se consumia, fazia coro às notas do odor que emanava da panela, um vapor que recendia um pouco dos ingredientes, um pouco das especiarias, talvez ainda um pouco da fome de João.

           O pão artesanal, duro e fibroso, esperava sobre a mesa, junto a um prato de ágata, para acompanhar o cozido. Aguardava as mordidas fortes e decididas. Cabia a seu destino que alguns de seus pedaços, rasgados com a mão calejada, boiassem sobre o caldo quente, depois de servido.

            João de Ballina finalmente pôs a concha dentro da panela e encheu o prato. Sobre a mesa de madeira cheia de fendas e rasgos, de grossos caibros reaproveitados de antigas casas demolidas, fez sua habitual e solitária refeição. A fome e o cansaço eram praticamente iguais, nos caires das noites ou, dependendo da estação, no final dos entardeceres. O cão dormia próximo ao fogão, nesse momento, excepcionalmente indiferente à fragrância do guisado e ao ato de João se alimentar. O gato passava de tempos em tempos por debaixo da mesa, esfregando-se nas botas do homem que  comia. Olhava para tudo com a altivez solene que só um gato pode ostentar. De quando em quando, saía para um canto e esticava-se no chão olhando para abstratas lagartixas que caminhavam no teto de sapé.

            Já era noite e a luz escassa do lampião a querosene dava ao ambiente uma paleta de sépias amarelecidos. A chama indecisa brincava com os contornos das sombras do homem, projetadas na parede. Os sons do exterior ilusoriamente infinito povoavam a pequena casa. Sapos, corujas, grilos e pássaros noturnos. Se o homem ouvisse melhor, talvez escutasse o quase inaudível som dos saruês que pensam afugentar suas ameaças com a boca entreaberta e um ruído levemente silvado.

            João de Ballina, depois de consumir o prato do caldo, limpou a barba de alguns dias com a manga da blusa de juta. Na pequena sala, que era apenas um prolongamento da cozinha e onde, num dos cantos, ficava um pequeno catre sobreposto de mantas de lã, havia um pequeno tamborete. Sobre ele, um livro com capa de couro.

            Tanto a capa como as folhas haviam se oxidado pelo manuseio de décadas de leitura. Quem poderia dizer quantas mãos, antes das de João, haviam tocado nas letras escavadas no papel grosso das páginas?

            João de Ballina primeiro sentou-se no catre. Arqueou as costas e entrelaçou as mãos, que se uniram sobre a própria nuca, como que se resignando ao peso do cansaço e da rotina. Por fim, esticou o corpo. Deixou-o desabar lenta, mas firmemente, sobre a rude cama.

             Então, cumprindo o ritual de todas as noites, pegou suavemente o livro. Abriu num trecho já bem conhecido e balbuciou algumas palavras.

              O menino que lia, a conjunção de todos os meninos que liam, em incontáveis tempos e espaços, condoeu-se da rudeza sincera de João de Ballina. E as notas dos cheiros e dos sons confundiram-se, na sensação imaginada. E nesses, personagem e leitores entoaram juntos o que não podemos saber. Se uma prece, se um balbucio. Sem dúvida, um coro em que se ouvia a espessa profundeza dos sons, a aguda perplexidade de todos os cheiros, de todos os gostos, de indistinguíveis perfumes. Na visão turva de quem lê adormecendo, também a magnitude de todas as formas, de todas as cores, de possíveis e impossíveis cenários. Naquele ato, naquele ritual que somente a linguagem pode propiciar, todos foram João de Ballina e ele só pode ser o que foi, por ter emprestado de todos a palpável realidade de existir nos meandros da ficção e do sonho.

 

Marco Villarta

Minas Gerais, 03 de dezembro de 2023.

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Marco Villarta

Professor universitário, pesquisador, poeta, ensaísta, escritor, tradutor. Doutor em Letras. Nascido em São José dos Campos/SP - Brasil. Curioso pela vida e pelas pessoas, pela arte e pelos sonhos.

Membro correspondente da Academia Jacarehyense de Letras

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