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A quem me lê

Quantas maneiras há de se contar uma história?

               Por um lado, tantas quantas são possíveis de serem vividas.

               Mas... a outra face talvez seja a de quantas compreensões são possíveis nos elos das correntes que o texto narrado puder percorrer. Sem meias palavras, o que vocês leitores/leitoras forem capazes de vivenciar a partir do que é contado.

               Claro, concordo com vocês! No fundo, todo ato de contar é uma invenção, e tanto mais ardilosa e eficiente serão aquelas que fizerem vocês se esquecerem que cada momento da vida, nossa ou alheia é mera ficção. Duvidam?

               Já ocorreu que a dificuldade que temos em colocar em palavras nossas as mais profundas angústias e alegrias, triunfos ou perdas é irmã siamesa da fluidez com que nos emocionamos com alguns textos que lemos?

               Até vai uma e termina a outra?

               Ofereço, aqui, um exercício de invenção livre (força de expressão, é claro...)

               Minha história começa de trás pra frente. Pelo menos do ponto de vista do fluxo habitual do tempo. Espero que seja instigador...

                Morreu em 193... A inexatidão da data não é por segredo, mas por falta de informações mais detalhadas. O nome comum permitia milhares de homônimos e facilitou que se criassem confusões, eventos entrelaçados e duvidosas interpretações.

               Havia sido notário (era esse o termo usado na época) e teve, durante a vida, poucas surpresas.

               Como era comum em sua geração, foi jovem para a cidade grande, alugou um quarto numa pensão de subúrbio, como costumavam dizer. Ganhava pouco, mas, como não tinha grandes despesas, conseguia viver com alguma dignidade, sóbria e frugal.

               Dizia ter 54 anos. Aguardava sem exasperação a aposentadoria. Há versões que estimam que, a pouco menos de um mês de conseguir sua pensão, numa manhã não sai para trabalhar, ato estranho ao seu comportamento metódico.

               Um dia depois, a dona da pensão pediu ao cozinheiro que batesse na porta e chamasse por ele. Sem sucesso, resolveram arrombar a porta e, deitado tranquilamente em seu leito, o corpo sem vida.

 

Marco Villarta

Lavras,  25 de fevereiro de 2023.

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Marco Villarta

Professor universitário, pesquisador, poeta, ensaísta, escritor, tradutor. Doutor em Letras. Nascido em São José dos Campos/SP - Brasil. Curioso pela vida e pelas pessoas, pela arte e pelos sonhos.

Membro correspondente da Academia Jacarehyense de Letras

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