Inventário
- Marco Villarta

- há 20 horas
- 1 min de leitura
Trâmites pós-funeral.
O silêncio da casa. Agora não só para ele. Finalmente, tinha passado a fazer parte dos surdos murmúrios diários.
O remexer das pessoas pretensamente próximas (afinal, qual a escala da distância?). Arqueologia confusa essa de desmontar o âmago. Um quê de profanação.
Muitas gavetas, fotos aqui e ali.
Objetos antigos. Apego? Um receio de se livrar das memórias talvez grudadas nas pequenas bugigandas guardadas?
Uma pasta com contas não pagas. Em cada uma, um clipe oxidado. Um bilhete de loteria não premiado anexado..
Um porta jóias de vidro imitando cristal. Dentro, corpos de abelhas mortas. Talvez uma improvisada sepultura… livros com muitos marcadores. Caixas com fotografias, em diferentes graus de amarelecimento. Jogos de tabuleiro num canto superior de uma estante empoeirada. Um antigo videocassete. A máquina de escrever. Mimeógrafo. A pequena tv de tubo, presente antigo, ainda ali.
No armário do banheiro, produtos de toucador. Todos pela metade. Matemática estranha. Tantas metades que se somam…
As panelas meio organizadas, meio amontoadas no armário da cozinha.
Alguns bilhetes de amor antigos numa caixinha…
Porta-retratos de pessoas e de bichos.
No meio de um papel de seda, casualmente deixado sobre uma prateleira, uma passagem aérea sem data. Que, desavisadamente, estava sendo jogada fora com o papel inútil e fora de lugar.
Marco Villarta
Lavras, 31 de outubro de 2023.



Comentários