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O sono dos cães

 

Ao Pedrinho e à Melissa

 

Desde criança, almejava compreender o pensamento dos bichos.

Não tinha morado na roça. Mas a cidade, naquela época, era um centro calçado de pedras em volta da igreja, algumas ruas de terra no entorno e uma imprecisa divisa entre uma picada, rua mal traçada que o mato teimosamente invadia, e os pastos sem cerca.

Era quando saía da escola. Almoçava correndo, tirava o uniforme, vestia – muitas vezes no avesso – o calção cáqui (era assim que chamavam naquele tempo) e ia se sentar no começo do pasto. Via, a média distância, as poucas vacas pastando, um ou outro cavalo, os cachorros da vizinhança e um ou outro gato arisco e preguiçoso se estendendo sob o sol da tarde.

Desde então, desenvolveu uma técnica (viria a usar esse termo anos mais tarde). Fingia não estar olhando diretamente para os bichos. Fingia fechar os olhos, mas deixava-os apertados, entreabertos.

Sua percepção, naquela época, era que os bichos não se davam conta e se aproximavam. Conforme foi crescendo, foi tendo a tentação de usar a mesma estratégia nos negócios humanos. Começou pelas paixões, atreveu-se a usar entre os anônimos, nas ruas agora cheias de cidades com limites mais definidos. Quase fez a loucura de usar no trabalho.

Era uma quase miopia. Uma miopia inventada, é verdade, daquelas que a gente pode desfazer quando quiser. Jovens se sentem poderosos em fazer, refazer e desfazer as coisas, sentimentos, ideias, decisões. Seu primeiro engano com os bichos foi esse. Um olhar contido é uma negação de uma réstia de luz; um beijo não dado é uma morte e, como em todas as mortes, é incerta a ressurreição.

E  sua vida foi correndo assim. A juventude voando e a desconfiança de uma competição da vida com o tempo. Uma perda arrastada. Um placar sempre desvantajoso.

Foi no início da maturidade... digamos, da idade madura, que começou a desconfiar do equívoco. As pistas foram esparsas. E sempre vieram dos bichos. Estranhamente, dos bichos menos óbvios. Não dos animais de estimação, nem dos bichos fofinhos que costumam inspirar afeto e declarações de amor à vida.

Vieram das pequenas aranhas nos cantos escondidos das paredes; uma formiga solitária, apressada, carregando uma minúscula migalha de pão... mesmo uma barata, atenta, parecendo observar a distância essa espécie tão agressiva e tão nova. Com a inércia kafkiana de seus ancestrais de éons sem fim, zombando da fragilidade da compulsão humana de observar.

Foi quando se deu conta de sempre ter sido um voyeur. Sua principal curiosidade dependia apenas de olhar. Mas como pensariam os bichos sem olhos ? Como saberiam do mundo os cogumelos ou os fungos ? O generoso kephir diário ou a levedura das panificadoras e dos cervejeiros...

Então desistiu. Sua primeira conclusão é que havia buscado um nexo fora do mundo dos humanos. Talvez pressentisse a falta de sentido das nossas coisas. A ineficácia de nossas filosofias e teologias, a estupidez de nossas maneiras e nossos modelos de viver juntos.

A clareza seguinte veio do questionamento de seu próprio propósito. Pensamento dos bichos ? Quem disse que os bichos pensam ? Não porque sejam inferiores. Pensar não é algo tipicamente humano ? Sabemos o que é pensar ? Mesmo para nós ? Difícil.

Ainda gostava dos bichos. Decidiu abrigar um ou dois cães, o que o espaço de sua pequena casa e o seu pequeno tempo poderiam permitir. Acostumou-se com a presença silenciosa deles, apenas de estar próximos. Já que não falavam – ponderou – se contentariam em apenas estar no mesmo tempo e lugar.

Foi confortante despender o tempo livre com aqueles seres que pareciam  não se preocupar com explicações, causas, efeitos, razões. Descobriu lhe fazer bem poder compartilhar uma despreocupação. Aprender com eles um exercício de apenas viver.

Vez ou outra, no entanto, havia, nos seus pesadelos, umas ruínas do antigo edifício. Acordava, ofegante e suado sabendo que era um cão, um gato ou um inseto pouco inteligente que não distinguia uma vidraça da vastidão dos vãos, dos espaços livres.

Não há saída, certificou-se.

E, assim, foi convivendo com os bichos.

Acostumou-se, pouco a pouco, a observar o sono de seus cachorrinhos. O estado de alerta, o corpo estirado e entregue ao sono (ou seriam aos sonhos ?), os dentes na boca entreaberta, com a ambiguidade do sorriso da fera e placidez de uma criança humana.

Muito lentamente, começou a lhe ocorrer uma ideia.

E se o modo de os bichos saberem do mundo, de si e dos humanos estivessem naquele estado misterioso do sono ? E se também, para nós, esse fosse o verdadeiro caminho. Não um pensar sobre a vigília e o repouso, não uma análise do que não sabemos estar bem lá dentro, no âmago de algum lugar, muito interno, inacessível.

Na vigília somos diferentes. Mas e no sono ?

Não saberemos se ele descobriu algo mais que suas hipóteses. Se o sono fosse a chave, como descobrir um método de ultrapassar a fria barreira do raciocínio, das causas e efeitos, da obsessão pela busca de uma finalidade.

Em seu prontuário médico, sobre sua morte, ficou registrado que sofreu parada cardíaca, enquanto dormia. Infelizmente, dias antes, tinha sofrido uma queda. Estava no hospital, internado. Seus cães não estavam com ele. Não saberemos se sonharam sua morte; se no sono, comunicou-se com eles. Se, naquele momento tão extremo, essa misteriosa barreira possa ter sido rompida.

Seus cães foram adotados por vizinhos piedosos. Observou-se apenas, durante o restante de suas vidas breves, uma tristeza constante. Um dos vizinhos (já que os dois cães não ficaram na mesma casa) observou, certa vez, que seu cão adotado tinha um sono diferente. Era como se acordasse sempre assustado.

Mas humanos têm sempre o costume de atribuir a outros bichos comportamentos deles próprios.  E, quase sempre, a dificuldade de não conseguir deixar de associar eventos que podem não ter ligação com suas vidinhas simples, com sua capacidade de espera e sua paciência de apenas estar aqui, sem perguntas, sem projetos de futuro.

Se os cães sonham com seus companheiros humanos ? Se sabem que sonham ? Se sonham, não sabem contar. Não sabemos se porque não falam ou porque não sabemos de suas outras maneiras de serem o que são. Talvez, afinal, apenas não queiram. Não se importem com isso. Falar é substituir uma coisa pela outra. Um vivido pelo narrado. Talvez os cães achem isso menor. Talvez até desonroso.

Ou, talvez, esses sejam apenas maneiras humanas de não se conformar com o que não é seu...

 

 

Marco Villarta

20 de março de 2018.

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Marco Villarta

Professor universitário, pesquisador, poeta, ensaísta, escritor, tradutor. Doutor em Letras. Nascido em São José dos Campos/SP - Brasil. Curioso pela vida e pelas pessoas, pela arte e pelos sonhos.

Membro correspondente da Academia Jacarehyense de Letras

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