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Averso
Para Neusa Cardoso No verso da esfera Hei de ver Xangri- Lá Onde Ver de vereda(s) Outras faces de espelho Fazer corrupio Bendizer as abelhas No verso da esfera Criança com velho Irão se encontrar. 2016

Marco Villarta
há 4 horas1 min de leitura


Ruach
Primeiro Ecrã Nas praças os pombos andavam tranquilos. Seus pés pequenos e seu andar cambaleante preenchiam o vazio dos cafés. Os intervalos de tempo, espaçados, proviam, aqui e ali, figuras humanas se deslocando sem pressa. A nitidez do sol em tarde que acabava recobria silhuetas silenciosas. A densidade da brisa parecia, aos poucos, sufocante, ir lapidando o peso das figuras esquálidas. Ar não havia. Quase. Não que não tivesse, por agora,

Marco Villarta
há 5 dias3 min de leitura


DNA
Chegar e partir... Onde ir... E os irritantes porquês Passaremos cada tempo de existência Na solidão de cada indivíduo E no anonimato da espécie E o universo continuará, perplexo A ignorar nossa busca do sentido Fazer sentido É concatenar começo e fim, Causa e consequência É ligar tempos e memórias Pobres de nós Não cabemos nas simultaneidades Nos descontínuos infinitos espaços Nos compactados ou elásticos tempos Desse universo que desconhecemos O que há no espaço entre um pr

Marco Villarta
há 5 dias1 min de leitura


Sete-de-Ouros
Sete-de-Ouros Jogo jugo Truco Engano e engenho Vida que capota Em cada nova situação Impossível saber Se duro o futuro Quando emerge o presente Dádiva ou maldição Surpresa de quem vive Ver acontecer o que não sabe Coexistir com o perigo E com o heroico Do momento Único, último Definitivo. Marco Villarta Oliveira/MG, 12 de julho de 2026.

Marco Villarta
12 de jul.1 min de leitura


Uranos
Numa língua estranha vislumbrou o passado enterrado em tantos véus no jeito como viu andarem os desconhecidos peregrinos reconheceu as batidas no próprio peito e por efeito dos fragmentos de memória viu-se como tantas faces sentiu a dor de suas tantas mortes e só foi por sorte que resistiu a tanto desalento em sobrepostos tempos Ouviu baterem palmas e pisarem o chão no ritmo com que a dança do começo e do fim faz círculos com todos os convivas dessa estranha estação a nave at

Marco Villarta
6 de jul.1 min de leitura


Olhos seus
No mundo que vejo É seu olhar que penso Estar ainda captando As cores, os brilhos Na minha memória Confundo as lembranças Minhas, suas, nossas Por que labirintos vagueio E me esgueiro por tais Escuros vãos, Movediços chãos? Marco Villarta Lavras, 21 de outubro de 2022

Marco Villarta
6 de jul.1 min de leitura


Inquisitio
Quem não ? Nunca ? Ninguém ? Nada ? Negativas certezas subtraídas razões O outro é o outro do espelho Mas se olho, sou eu Mas se vejo, sou avesso Desse verso mistério de achar-se perdido no que penso encontrar Sou música surda tela sem pintar o rio que flui monótono no inexoráravel existir escravo do movimento parado em se transformar sou sendo a contínua pergunta a dúvida, que, suspensa, não me deixa saber-me de mim nem sequer ser outro que não seja o vazio de não se complet

Marco Villarta
6 de jul.1 min de leitura


Inventário
Trâmites pós-funeral. O silêncio da casa. Agora não só para ele. Finalmente, tinha passado a fazer parte dos surdos murmúrios diários. O remexer das pessoas pretensamente próximas (afinal, qual a escala da distância?). Arqueologia confusa essa de desmontar o âmago. Um quê de profanação. Muitas gavetas, fotos aqui e ali. Objetos antigos. Apego? Um receio de se livrar das memórias talvez grudadas nas pequenas bugigandas guardada

Marco Villarta
6 de jul.1 min de leitura


Condicional
Se o sono dos lutos É oblívio dos vivos Sobreviventes do caos Se o silêncio dos peitos E o trêmulo das pernas Traz o peso dos obscuros Labirínticos porões As lágrimas que ainda vertem Se revestem de tantas túnicas Única estrada de pedregosa dor Se a coragem quase arrefeceu Se os pedaços arrancados de mim Foram plena antítese do céu Foram abraços que chegaram ao fim Se por tudo isso lutei pesados lutos E enfrentei a verborragia dos brutos Mas os duros golpes no peito S

Marco Villarta
6 de jul.1 min de leitura


Acarinho
Ah se eu pudesse ter você comigo Agora, no instante mesmo, no aconchego Traria você pra dentro e deitaria juntinho Entre momentos de silêncio, de carinho Deitaria no seu colo, feito carente menino Me deitaria no seu corpo, feito homem sedento E nesse alento, riríamos muito, entre outros ruídos O amor é assim, mesmo, de suaves planícies De alturas de a gente perder de vista, os sentidos Faz a vida ser provada, faz a paz chegar mansinha Ah, se eu pudesse ter você comigo Agora,

Marco Villarta
5 de jul.1 min de leitura


Meu bem
Quero você que paz me traz que bem me faz que canta e me encanta Quero você que diz o certo me mostra o incerto que rosas me traz e faz-me ver que há espinhos Quero você para chorar comigo para sorrir comigo para suar comigo Quero você para comer bombom à mesma hora Para pegar chuva, brincar de corrupio Para viver em apuros Quero você bem aqui pertinho pra compartilharmos isto tudo juntinho. Neusa Cardoso Jacareí, 1° de outubro de 1985.

Marco Villarta
5 de jul.1 min de leitura


Aer
Às vezes sinto inveja das plantas As plantas que se esgueiram Pelas estruturas metálicas E, esquálidas, ocupam de vida Cada pequena fresta E por mais que eu veja nas plantas Glúon que costura as arestas Serenas fadas que vicejam Nos sítios mais improváveis Artifício que a natura mater Nos incontáveis éons Para voltar-se para o muito além Ou para um aquém do que somos Pois que, meros gomos do todo Efêmeros signos como outros tantos Talvez aqui onde e quando estamos E o quanto

Marco Villarta
5 de jul.1 min de leitura


Aceno
Até o infinito Não há íngreme estrada Nem escarpada montanha Até o infinito Descomeça o fim E destermina a origem Não há primeiras Ou últimas letras O infinito não se escreve Nem se registra É fluxo também do que somos Junto ao ilimitado rio E esse fio ninguém Sabe onde vai dar E se em algum dia ou noite A memória brincar De descobrir fragmentos A única certeza É o eterno movimento O que persiste sendo O que vamos vivendo Entretecendo Infinitos nós. Marco Villarta Lavras, 1

Marco Villarta
5 de jul.1 min de leitura


A quem me lê
Quantas maneiras há de se contar uma história? Por um lado, tantas quantas são possíveis de serem vividas. Mas... a outra face talvez seja a de quantas compreensões são possíveis nos elos das correntes que o texto narrado puder percorrer. Sem meias palavras, o que vocês leitores/leitoras forem capazes de vivenciar a partir do que é contado. Claro, concordo com vocês! No fundo, todo ato de contar é uma invenção, e tanto mais ardilos

Marco Villarta
5 de jul.2 min de leitura


Sinestesias
Na sua rústica casa, João de Ballina estava sentado à beira do fogão a lenha. Na panela de ferro começava a borbulhar o guisado de nacos de carne com batatas, cenouras, beterrabas e berinjelas. O calor das chamas ajudava a aquecer o corpo cansado da lida no campo. As achas de lenha crepitavam e, de alguma maneira, as notas dos ritmados estalos da madeira que se consumia, fazia coro às notas do odor que emanava da panela, um vapor que recendia um pouco dos ingredientes, um pou

Marco Villarta
5 de jul.3 min de leitura


Contabilidade
Qual o valor de existir ? Não há Porque é acaso É fortuna Dádiva das probabilidades Alteridade com o que não veio a ser Algo vale para alguém Mas quem subsistirá ao último lampejo ao sopro derradeiro ao encolhimento final símbolos são a outra face espelho das coisas pela linguagem (re)criamos mundos Num desses Há de estar uma musa Melhor que seja Mnemósine Com olhos absortos ela há de olhar para o infinito passado e na solitária contemplação há de solfejar um suspiro com alí

Marco Villarta
5 de jul.1 min de leitura


O sono dos cães
Ao Pedrinho e à Melissa Desde criança, almejava compreender o pensamento dos bichos. Não tinha morado na roça. Mas a cidade, naquela época, era um centro calçado de pedras em volta da igreja, algumas ruas de terra no entorno e uma imprecisa divisa entre uma picada, rua mal traçada que o mato teimosamente invadia, e os pastos sem cerca. Era quando saía da escola. Almoçava correndo, tirava o uniforme, vestia – muitas vezes no avesso – o calção cáqui (era assim que chamavam na

Marco Villarta
4 de jul.4 min de leitura


Urdume
Haverá no avesso dos versos Submersos endereços Onde as almas se encontram? Será a mesma eternidade Do menino que pensa Sempre estar ali O sonho doce da padaria da esquina do velho que sente fluida a contínua vida para além de todos os tempos e de todos os cantos? Serão as perguntas As respostas que já temos Mas nos esquecemos onde guardamos E por isso precisamos Fuçar nos bolsos das roupas No profundo das gavetas Que ainda não arrumamos? Será a existência Um intermitente pul

Marco Villarta
4 de jul.1 min de leitura


Equidistância
Entre o ponto Em que me encontro E o ponto Em que me conto Há a distância De duas vidas Ambas, reais Em uma, invento o que sinto Em outra, intento o mundo Onde penso estar. Marco Villarta Lavras, 13 de maio de 2023

Marco Villarta
4 de jul.1 min de leitura


Escala
As desmedidas dores No geral, são contidas Por serem tão profundas Não transbordam Do sem-fim em que se afundam Quando são expelidas São inaudíveis gritos Para muito além dos físicos ouvidos Dores não se nomeiam E nem há realmente quem as quantifique Rompidos os diques que as contém Ninguém as vê, Ninguém as sabe Entre nós todos Entre cada um Há intangível espelho Há indevassável abismo Entre o que sonhamos E o que perdemos Há as escuras noites E as esquecidas sombras As não

Marco Villarta
4 de jul.1 min de leitura
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