top of page

Epitáfio de um negro corpo

O corpo negro jazia no chão

Não era singular

Era coletivo

Um metonímico plural

Naquele corpo,

Em cada corpo

Outra metonímia

Insígnia da morte

Pouca sorte de quem

Nada tem

De quem subsiste

Inexiste

Na diária economia do medo

No arremedo de vida

Nas migalhas compartilhadas

Com os cães

O corpo de um preto

Retinto no rigor mortis

Nos negros sacos funerários

Na negra escuridão

Da obscura indiferença

Os ancestrais e seculares grilhões

Continuam ali

Nos morros

Nas vielas

Nas subcidades

Às margens de tudo

Mas as lágrimas são da mesma cor

O sangue que escorre

Não difere do que, frio,

Extermina.

Por vezes

A tristeza não tem fim

Dos que são

Mas dos que também se irmanam

E se indignam

Não precisava ser assim

Em nome dos deuses,

Por uma pretensa e falsa moral

Por todos os discursos

Por todos os pretextos

Pelas mais abjetas e mesquinhas razões

Os corpos negros continuam jazendo no chão.

 

Marco Villarta

Lavras/MG, 05 de novembro de 2025.

 

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


Marco Villarta

Professor universitário, pesquisador, poeta, ensaísta, escritor, tradutor. Doutor em Letras. Nascido em São José dos Campos/SP - Brasil. Curioso pela vida e pelas pessoas, pela arte e pelos sonhos.

Membro correspondente da Academia Jacarehyense de Letras

Copyright © 2025. Todos os Direitos Reservados

bottom of page