Epitáfio de um negro corpo
- Marco Villarta

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O corpo negro jazia no chão
Não era singular
Era coletivo
Um metonímico plural
Naquele corpo,
Em cada corpo
Outra metonímia
Insígnia da morte
Pouca sorte de quem
Nada tem
De quem subsiste
Inexiste
Na diária economia do medo
No arremedo de vida
Nas migalhas compartilhadas
Com os cães
O corpo de um preto
Retinto no rigor mortis
Nos negros sacos funerários
Na negra escuridão
Da obscura indiferença
Os ancestrais e seculares grilhões
Continuam ali
Nos morros
Nas vielas
Nas subcidades
Às margens de tudo
Mas as lágrimas são da mesma cor
O sangue que escorre
Não difere do que, frio,
Extermina.
Por vezes
A tristeza não tem fim
Dos que são
Mas dos que também se irmanam
E se indignam
Não precisava ser assim
Em nome dos deuses,
Por uma pretensa e falsa moral
Por todos os discursos
Por todos os pretextos
Pelas mais abjetas e mesquinhas razões
Os corpos negros continuam jazendo no chão.
Marco Villarta
Lavras/MG, 05 de novembro de 2025.



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