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Slovíada
A escrita é a testemunha dos passos do Homem e, por esse atributo, é deixado ao julgamento da posteridade o conteúdo desse caso entre os pólos da vida. Eis a carta. Você, leitor dessa carta, servirá como pessoa incumbida de fazer dessa verdade anunciada a profecia futura. Não será sua tarefa julgar o médico ou o escritor, mas incorporá-los ao tecido da condição humana. Neste fim de século certamente você tem visto o Homem debruçar-se sobre o próprio Homem, na il

Marco Villarta
há 21 horas7 min de leitura


Ícone
Quando eu era criança, gostava de observar as formigas (re)construírem suas casas. Após forte chuva, pisada acidental ou, mesmo, o desabamento natural daqueles pequenos torrões de terra. Uma ou outra vez, via a formiguinha tentando levar uma folha ou uma pedra dcscomunal. Após um inconcebível esforço solitário, vinha outras tentar ajudar a companheira. Quase sempre esse esforço comunitário resolvia o problema e eu me dedicava em ver aquele objeto desproporcional entrar com mu

Marco Villarta
há 21 horas7 min de leitura


Medi(a)ções
Nos labirintos do centro de Buenos Aires me deparei com uma galeria. A maioria das lojas fechadas, como se fosse um depósito de coisas antigas e empoeiradas. Na última delas, havia uma espécie de antiquário, com as paredes repletas de variados relógios. Entrei, curioso. Mário, o dono, saudou-me com a musicalidade de um castelhano portenho, meio italianado. Com meu sôfrego portunhol, tentei responder à amabilidade. Por fim, perguntei pela razão de tantos relógios. Se eles aind

Marco Villarta
há 21 horas1 min de leitura


Quinquilharias
O que mais o encantava nos livros velhos eram os papéis que achava dentro. Números de telefone fixo com poucos dígitos, cartas pessoais, cartões comemorativos. Os sobrinhos recriminavam sua mania de comprar livros e mais livros. Mas era uma maneira que ele encontrou de disfarçar a busca por essas reminiscências fragmentadas. Peças desconexas de quebra-cabeças incompletos, a sobra das pedrinhas coloridas de quebrados caleidoscópios... Numa tarde muito q

Marco Villarta
há 21 horas2 min de leitura


Forthún
Para Neusa Cardoso Na semiclaridade por entre os jarros de azeite, a poeira do ar brilhava como ouro em pó. Da distância do pátio, onde eu ensacava os grãos agora secos, via resplandecer seu vulto. Sua túnica clara, seu xale colorido, traspassado por sobre um ombro, sua cabeça coberta. No momento em que vi seus olhos, em discreta perplexidade para o além daquele depósito, senti que toda aquela atmosfera luminosa era mais que um lugar ou um tempo. Vi passados e f

Marco Villarta
há 21 horas1 min de leitura


Atonia
Sonhou estar imóvel em seu leito, lembrando-se de viagens antigas. Recordava, agora, dos acordes de um saxofone distante, em algum apartamento vizinho ao hotel barato em que havia se hospedado. Confundia, nas ruas, a cidade. Olhava para cima e via prédios cinzentos com ornamentos em art déco. Podia ser São Paulo ou Buenos Aires, Rio de Janeiro ou Goiânia. As largas avenidas se bifurcavam em estreitos corredores de grossas paredes de um impossível mosteiro do século XVI. No ac

Marco Villarta
há 21 horas2 min de leitura


Alfarrábio
Sempre gostei das casas velhas. A maioria das pessoas não sabe, mas as camadas do tempo vão amalgamando portais. Viver numa casa velha é transitar entre dimensões, fluir entre universos. Vou habitando uma casa assim até que me façam sair. Não faz mal. Me mudo para outra. Sou sempre taxado de excêntrico, porque pouco saio fora de seus portões. É que para mim a vizinhança não está no exterior, mas dentro. É falso dizer que vejo vultos ou que tenho alucinações. Dito

Marco Villarta
há 21 horas2 min de leitura


Sincretismo
Havia um ar de mistério nos olhos dos gatos aquela noite... Não havia lua, não havia quase um céu, antes de tudo virar tantas canções, guardadas dentro dos livros velhos, dos manuais de magia. A nudez nas praias era como os sonhos que se escondem sem se repetir, meio mitos, um pouco de fome das brisas. A sopa estava quente... Começou uma tempestade esverdeada, e os relâmpagos eram a coreografia dos pensamentos, das roupas jogadas no chão. Ele coçou a barba e olhou para as nu

Marco Villarta
há 21 horas2 min de leitura


Ruach
Primeiro Ecrã Nas praças os pombos andavam tranquilos. Seus pés pequenos e seu andar cambaleante preenchiam o vazio dos cafés. Os intervalos de tempo, espaçados, proviam, aqui e ali, figuras humanas se deslocando sem pressa. A nitidez do sol em tarde que acabava recobria silhuetas silenciosas. A densidade da brisa parecia, aos poucos, sufocante, ir lapidando o peso das figuras esquálidas. Ar não havia. Quase. Não que não tivesse, por agora,

Marco Villarta
há 6 dias3 min de leitura


Inventário
Trâmites pós-funeral. O silêncio da casa. Agora não só para ele. Finalmente, tinha passado a fazer parte dos surdos murmúrios diários. O remexer das pessoas pretensamente próximas (afinal, qual a escala da distância?). Arqueologia confusa essa de desmontar o âmago. Um quê de profanação. Muitas gavetas, fotos aqui e ali. Objetos antigos. Apego? Um receio de se livrar das memórias talvez grudadas nas pequenas bugigandas guardada

Marco Villarta
6 de jul.1 min de leitura


A quem me lê
Quantas maneiras há de se contar uma história? Por um lado, tantas quantas são possíveis de serem vividas. Mas... a outra face talvez seja a de quantas compreensões são possíveis nos elos das correntes que o texto narrado puder percorrer. Sem meias palavras, o que vocês leitores/leitoras forem capazes de vivenciar a partir do que é contado. Claro, concordo com vocês! No fundo, todo ato de contar é uma invenção, e tanto mais ardilos

Marco Villarta
5 de jul.2 min de leitura


Sinestesias
Na sua rústica casa, João de Ballina estava sentado à beira do fogão a lenha. Na panela de ferro começava a borbulhar o guisado de nacos de carne com batatas, cenouras, beterrabas e berinjelas. O calor das chamas ajudava a aquecer o corpo cansado da lida no campo. As achas de lenha crepitavam e, de alguma maneira, as notas dos ritmados estalos da madeira que se consumia, fazia coro às notas do odor que emanava da panela, um vapor que recendia um pouco dos ingredientes, um pou

Marco Villarta
5 de jul.3 min de leitura


O sono dos cães
Ao Pedrinho e à Melissa Desde criança, almejava compreender o pensamento dos bichos. Não tinha morado na roça. Mas a cidade, naquela época, era um centro calçado de pedras em volta da igreja, algumas ruas de terra no entorno e uma imprecisa divisa entre uma picada, rua mal traçada que o mato teimosamente invadia, e os pastos sem cerca. Era quando saía da escola. Almoçava correndo, tirava o uniforme, vestia – muitas vezes no avesso – o calção cáqui (era assim que chamavam na

Marco Villarta
4 de jul.4 min de leitura


Folhas
As finas folhas da janela harmonizavam-se com as secas folhas lá de fora, no território estrangeiro do quintal. A casa antiga tinha vários pequenos quintais e alguns deles davam para lugar nenhum. Em criança eu sempre imaginava transpor a parede que separava cada um daqueles lugares de brincadeiras e de sonhos. Fechava os olhos e investia a mim mesmo de poderes de super-herói. Ficava invisível, me tornava capaz de atravessar paredes ou de ter visão de raios X. Na prática, eu

Marco Villarta
30 de ago. de 20254 min de leitura


Sitchás
No ateliê de trabalho havia aquela desordem ordenada de livros, cheios de marca-páginas e o quadro branco com garatujas de ideias e tarefas. Vez por outra, o gato dormia no canto da escrivaninha. Se o humano estava ali ou não, era indiferente. Talvez para os gatos, os lugares bastem para serem índices das pessoas. Talvez pelo cheiro, talvez pelo costume desses lugares estarem ocupados pelo alguém que lhes interessa. O player, réplica de toca-discos antigo, reproduzia um vinil

Marco Villarta
14 de set. de 20232 min de leitura


Dádiva
Tenho 74 anos e fui diagnosticado com uma doença senil degenerativa. Meu nome é... Albert, Aberto, Albertino... algo assim. Alguém da equipe médica que me assiste me sugeriu escrever sobre os acontecimentos de minha vida que eu possa achar interessantes ou pitorescos. Podem ser de meu passado remoto ou de meu passado recente. Sobre este último, já não tenho o que dizer ou lembrar. Minha memória recua cada vez mais, mas, nesse recuo, é como a onda da praia que volta com força,

Marco Villarta
16 de abr. de 20232 min de leitura


Refração
Cada dia olho no espelho e me surpreendo mais... não sei se é porque o rosto que vejo é mais diferente do que imagino ou porque recrio...

Marco Villarta
16 de abr. de 20231 min de leitura


Argosíada
No momento em que Ulisses pisou novamente o solo de Ítaca, sua mulher Penélope havia de ter envelhecido, seu pai Laertes de ter falecido, Telêmaco já não seria seu menino, mas um homem que ele desconheceria. O último olhar de seu cão Argos foi o efêmero momento em que provavelmente não se sentiu estrangeiro em sua própria terra. Marco Villarta Lavras, 10 de fevereiro de 2023.

Marco Villarta
16 de abr. de 20231 min de leitura


Prosa
Certa vez, viajando por uma cidadezinha do interior, parei numa padaria para tomar café. Ao meu lado, um homem de meia-idade, terminava, com o olhar distante, de comer seu pão com manteiga. Lembro-me que ele se levantou, pigarreou, olhou para o meu lado e comentou: __ Viver dói, moço. Do meu outro lado, um senhor bem idoso rebateu: __ Viver não dói, não. O que dói é o passar do tempo. Marco Villarta Lavras, 10 de fevereiro de 2016.

Marco Villarta
16 de abr. de 20231 min de leitura


Olam HaBá
No abstrato ceu de Swedenborg, reunidos ao redor de uma mesa, Jonathan Swift brincava com seus fugazes yahoos, Kafka observava um inseto...

Marco Villarta
15 de abr. de 20231 min de leitura
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