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Ruach


 

Primeiro Ecrã

           

            Nas praças os pombos andavam tranquilos. Seus pés pequenos e seu andar cambaleante preenchiam o vazio dos cafés. Os intervalos de tempo, espaçados, proviam, aqui e ali, figuras humanas se deslocando sem pressa. A nitidez do sol em tarde que acabava recobria silhuetas silenciosas. A densidade da brisa parecia, aos poucos, sufocante, ir lapidando o peso das figuras esquálidas. Ar não havia. Quase.

            Não que não tivesse, por agora, o frescor das chaminés que desistiram. Mais puro, isso era, sim. Como há muito. Qual a vantagem ? No que rareava de sorver o ar renovado, uma a uma, as figuras ficavam translúcidas. Iam deixando-se não se verem. Viraram sussurros. Após. Sem fim.

            Zunidos de trens. O metal das rodas nos trilhos limpos. Vagões chacoalhando com suave balanço de quem dança mais para si do que… Já não paravam. Estações ? O desembarque por dentro. Bastava ir-se esvanecendo. Chegando. A um lugar. De qualquer maneira, um trem é o que é. Cumpria  a missão de deixar pelo caminho passageiros. Bilhetes já não...

            Por sobre as colchas coloridas. Retalhos de panos. Pedaços de histórias nas roupas. As sombras quiltavam, apagando-se as memórias de vestir-se. Precisa a vida que se derrete no deitar, esvaziando-se. Almas são sopros. Algo não é ?

            Os leitos já não eram disputa. Máscaras no chão. Luvas no rastro de quem corria até tão pouco… agora já nenhum. Tempo. Éter evaporando na displicência dos frascos abertos. Há muito os monitores sem números. Não mais. Aritmética impossível. No lugar, uma geometria artificial de retas. Contínuas. Por ora, os que ainda. Recostados nas paredes. Pernas dobradas. Vencidos. A rendição, porém… sem pressa. Sem sons. Somente estar aí. Provisoriedade. Espera…

 

Segundo Ecrã

 

            Havia chegado. O dia. Planos de há tanto. Você não se esqueceu de nenhum convite ? Amor ? Claro que não. E você ? As famílias, prontas. Um ou outro, obrigação. Mas os amigos… ah ! Esses sabem os caminhos. Os pequenos acasos. Os gestos inconfessos. Segredos. A competição. Qual indecisão perderá primeiro ? Os sorrisos, os olhares. Intermitentes. Sem sincronia. Até que. Coreografando juntos. De repente. Os amigos. Um a mais. Uma desculpa para não. Tenho coisas pra fazer.

            No decorrer. As mentiras flagradas. As mensagens vistas de esgueio. Os olhos distantes na antes determinação de estarem todos ali. As saídas para atender. Ou para sorrir de algum post negado ao riso comum. E então, já são sempre dois. Quando vem junto.

            Finalmente.

           

[...]

Sétimo Ecrã

 

            As alegrias. Fugazes, sempre ? Algumas, um pouco mais… o almoço alegre, os choros, os risos. Como saber dos prenúncios ? Antigos xamãs dizem ser o tempo um ciclo. Serpente que se abraça. Característica humana pensar-se solene. O fim veio invisível. Silente. Impossível adivinhar que o ar que faltou era. Sinal.

            Não que o Cosmos… não houve projeto, intento. Apenas  havia muita gente. Na festa. No mundo. E a pequenez encontra sua outra ponta. Sua outra face. E, já que os seres perseguem persistirem o que são, aqueles apenas quiseram se estender. Perdurar.

            No ar que já faltava, difícil saber se metáfora da irona ou metonímia da vida no avesso. Vida é autofagia. Viver é morrer. Destruir também é criar. Afinal somos todos um. Um planeta. Ares não têm fronteiras. Pedágios sem cancelas. Inúteis hierarquias.

            Núpcias são inícios. Para vencer os inevitáveis finais. A espécie vencendo as fragilidades individuais. Teria sido diferente ? Se a festa tivesse sido menor ? Se todos fossem da mesma aldeia. Quem saberá ?

            Se antes. Se houve tempo. Algum diário escrito. Algo mais perene que mensagens eletrônicas. Um futuro arqueólogo. Daqui ou de um ponto distante. Multiverso. Talvez seja possível. Saber por quê. Haverá. É possível. Os indícios. As construções. Os oxidados restos. De máquinas que um dia.

            Indiferente, o vírus inerte. Sequer saberá o que fez. Epitáfio secreto. Jamais saberão quem foi.

 

 

           

Marco Villarta

Lavras, 20 de maio de 2020

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Marco Villarta

Professor universitário, pesquisador, poeta, ensaísta, escritor, tradutor. Doutor em Letras. Nascido em São José dos Campos/SP - Brasil. Curioso pela vida e pelas pessoas, pela arte e pelos sonhos.

Membro correspondente da Academia Jacarehyense de Letras

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