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Alfarrábio

Sempre gostei das casas velhas. A maioria das pessoas não sabe, mas as camadas do tempo vão amalgamando portais. Viver numa casa velha é transitar entre dimensões, fluir entre universos. Vou habitando uma casa assim até que me façam sair. Não faz mal. Me mudo para outra. Sou sempre taxado de excêntrico, porque pouco saio fora de seus portões. É que para mim a vizinhança não está no exterior, mas dentro.

            É falso dizer que vejo vultos ou que tenho alucinações. Dito de uma maneira mais contemporânea, são hologramas. Coisa muito antiga, com outros nomes. O corpo denso me impede de ir até onde estão (ou pelos não-espaços e não-tempos em que se espraiam). Mas nos sonhos... na entrevigília!

            Vou até eles. O mais curioso é me lembrar de lugares para onde nunca fui. Ou nunca me recordo de ter ido. Percebo que os limites entre as minhas memórias e as dos outros é uma tênue seda, um filó balançando ao vento morno das noites de verão. Se não estamos aqui, não estamos mais. Estar é fixar-se num espaço, num ponto, em uma coordenada. Também não há um quando, pois deslizar por todos os tempos ou por nenhum é o mesmo. Na infinitude da fonte, somos todos atemporais. Estamos sem estar.

            O mais sublime é conversar com uma criança, um jovem e um velho, simultaneamente. E descobrir que são a mesma pessoa. Perdi a conta de quando cheguei a essa terra. Talvez não faça diferença. Ás vezes me pego rindo com minhas versões de outros tempos e lugares. Somos iguais, mas diferentes, como eu sou em relação a todos os demais.

            Se olho no espelho, não sei se sou eu o outro no avesso que me responde ou que me pergunta. Aliás, o que faz diversas as perguntas e as respostas? As dúvidas e as certezas?

            Já nem sei mais se perguntei isso ou se foi a resposta que dei a um simulacro, a uma sombra, a um suave sopro de vida, a um pacífico fantasma que se compraz em atravessar as paredes, a se esgueirar pelos cantos mofados, a pender do texto intrincado dos tetos repletos de aranhas que entrelaçam suas teias.

            Sábios pequeninos artrópodes. Têm a rara paciência de nem sempre andar pelas quase invisíveis fios de seda. De se contentar com a presa que chega. Talvez de não se importar se é ela que constrói seu emaranhado ou se, afinal, se descobre construída por ele.                                                  


Marco Villarta

Lavras/MG, 27 de junho de 2024.

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Marco Villarta

Professor universitário, pesquisador, poeta, ensaísta, escritor, tradutor. Doutor em Letras. Nascido em São José dos Campos/SP - Brasil. Curioso pela vida e pelas pessoas, pela arte e pelos sonhos.

Membro correspondente da Academia Jacarehyense de Letras

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