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Atonia

Sonhou estar imóvel em seu leito, lembrando-se de viagens antigas. Recordava, agora, dos acordes de um saxofone distante, em algum apartamento vizinho ao hotel barato em que havia se hospedado. Confundia, nas ruas, a cidade.

Olhava para cima e via prédios cinzentos com ornamentos em art déco. Podia ser São Paulo ou Buenos Aires, Rio de Janeiro ou Goiânia. As largas avenidas se bifurcavam em estreitos corredores de grossas paredes de um impossível mosteiro do século XVI. No acobreado lusco-fusco de uma indefinida fosforescência, meio de noite, meio de dia; meio névoa, meio alvorecer, via diáfanas mulheres em vestes vaporosas, tules em câmera lenta, mais provocando vento do que sendo movidas por ele.

            Ele próprio, tal como as mulheres e as paredes, parecia flutuar num espaço sem tempo e num tempo sem dimensão. Encontrou-se, finalmente, em um verdejante jardim. O cheiro dos eucaliptos impregnado na neblina evocou a descoberta do amor.

Viu, de cima, seu corpo retesado, debatendo-se em incômodo estertor. Mas era, ao mesmo tempo, o que via e o que era visto. Mais precisamente: parecia ser o intervalo entre aqueles dois homens fadados ao fantástico, ao absurdo. Compreendeu que não sabia sequer o que era.

O frame seguinte era que sua imobilidade era de um muro em ruínas, impregnado de musgo espesso e antigo. Era também os insetos que caminhavam sobre o musgo e a brisa gelada que roçava a carapaça dos besourinhos e das inofensivas baratas da terra. Viu-se ainda sendo um cemitério abandonado. Sentia ser cada parte de si uma lápide, carcomida dos dizeres que já não significavam coisa alguma. Sentiu ser as letras dos mais absurdos contos que o comoveram ou o intrigaram em diferentes momentos. E tudo girava, e tudo soava como se o mundo fosse velha porteira, rangendo, neófita de vida e de paixões. As muitas faces que conheceu tornavam-se múltiplos espelhos em que se via multidão.

 O ato final foi a espiral que se alçava de todos os pontos, simétrica e intermitente. Nesse ponto, tudo já era sinestesia. Cheiros que brilham, cores que pulsam, sons que se avolumam por sob os dedos cuidadosos. Quando finalmente despertou, os olhos da cuidadora passaram da tensão para o alívio. Ainda assim, não teve certeza em que mundo havia acordado. Se tinha vindo da vida para alguma greta do multifacetado da morte ou se havia despertado de lá...


Marco Villarta

Lavras/MG, 31 de janeiro de 2026.

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Marco Villarta

Professor universitário, pesquisador, poeta, ensaísta, escritor, tradutor. Doutor em Letras. Nascido em São José dos Campos/SP - Brasil. Curioso pela vida e pelas pessoas, pela arte e pelos sonhos.

Membro correspondente da Academia Jacarehyense de Letras

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