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Quinquilharias

O que mais o encantava nos livros velhos eram os papéis que achava dentro. Números de telefone fixo com poucos dígitos, cartas pessoais, cartões comemorativos.

            Os sobrinhos recriminavam sua mania de comprar livros e mais livros. Mas era uma maneira que ele encontrou de disfarçar a busca por essas reminiscências fragmentadas. Peças desconexas de quebra-cabeças incompletos, a sobra das pedrinhas coloridas de quebrados caleidoscópios...

            Numa tarde muito quente de abril (não que o dia ou o mês significasse coisa alguma), encontrou dentro de um desarticulado livro de geometria euclidiana umas estampas antigas, num degradé de sépia entre esverdeado e amarelecido.

            Era uma estampa de uma bicicleta com dínamo elétrico. Servia para gerar eletricidade. Na estampa um cavalheiro com roupas do século XIX pedalava e, resultado de seu esforço, uma lâmpada estava acesa.      Entressorriu pela preciosidade do achado e dirigiu-se ao dono do alfarrábio para pagar pelo livro. Seu Benedito, que há tantos o conhecia, nem estranhava mais o estado ruim dos livros que levava e a diversidade de assuntos. Cobrou um preço simbólico e sorriu, em despedida.

            Chegando em casa, colocou o livro em um lugar qualquer de uma estante (nunca mais olharia para ele, mesmo). Instintivamente olhou para trás para certificar-se de estar sozinho. Desnecessariamente. Sempre estrava só. Pegou uma chave também antiga do bolso menor da frente da calça jeans surrada. Algibeira. Nome antigo. Divertia-se renomeando as coisas por nomes não mais usados. Abriu uma gaveta da escrivaninha e guardou a estampa com cuidado.

            Nas semanas seguintes, como uma espécie de oração da manhã, ficava longos minutos olhando para cada detalhe do papel descolorecido.   Numa dessas manhãs, ao tirar os olhos momentaneamente da estampa, deparou-se com uma foto emoldurada da cerimônia de entrega do título de cidadão honorário da cidade em que morava.

            Honra tardia. Vinha morando ali por tantos anos, desejando sempre ser aceito como um local, como alguém da terra e, já quase no ocaso de sua lucidez, no lento esmorecer do vigor físico, tinha recebido da vida o que havia almejado. Irônico, paradoxal. Quase um deboche.

            Sorriu. Um sorriso interno, invisível mesmo para os fantasmas que poderiam estar ali. Que acreditava estarem ali. Com um leve amargor, pensou que o tempo tem ritmo próprio. Olhou novamente para a estampa. Inusitada alegoria. Mais jovem, imaginava correr pelas estradas, galgar sucessos, realizar planos. Mas não era a bicicleta dos namorados ou dos ciclistas, não era a bicicleta de Vinci que tinha inspirado Einstein. Era a bicicleta com dínamo, sem sair do lugar. Suspirou longamente e um cansaço prolongado foi lhe subtraindo a consciência. Naquele momento, sem heroísmos, nem alarde, morreu devagar, a ponto de os fantasmas demorarem para recebê-lo na nova dimensão

            Não deve ter ocorrido a ele que poderia haver um propósito para a bicicleta com dínamo. A luz, resultante do esforço, o pedalar parado fazia distinguir possíveis estradas. Esses pensamentos poderiam lhe servir de consolo, modesto conforto no entorpecimento da idade e da solidão. Mas quem conhece realmente o ritmo do tempo? Talvez entre os fantasmas descobrisse alguma razão. Só que não saberia dizer para os que ficaram se tal sentido poderia de fato existir.


Marco Villarta

Lavras/MG, 21 de dezembro de 2024.

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Marco Villarta

Professor universitário, pesquisador, poeta, ensaísta, escritor, tradutor. Doutor em Letras. Nascido em São José dos Campos/SP - Brasil. Curioso pela vida e pelas pessoas, pela arte e pelos sonhos.

Membro correspondente da Academia Jacarehyense de Letras

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