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Senciência IV
A dor que aperta o peito É efeito do que desperta No jeito de desaprender Como é a doçura da vida Sem a ternura compartida Sem a consentida plenitude E se ilude quem imagina Que fascina alguém ainda Para além do que se viveu Pois o infinito não se divide Não se esgota, nem regride A menos do que o inimaginável Que a inefável experiência Da senciência inexplicável De viver um divino amor. Marco Villarta Lavras/MG, 05 de julho de 2022.

Marco Villarta
há 6 horas1 min de leitura


Cantor
Há menos ou mais Que o infinito? Quantos infinitos Caberão nos sonhos Habitarão os dias Faltarão Na inexata matemática Dos (a)deuses Quantos seres Contarão estrelas Esquartejarão seus mundos Na inútil busca Do último átimo da última face em que nos reconheceremos iguais a nós mesmos autocriadores pobres de nós ínfimos grânulos mancha de fino regolito nos espelhos dentro de espelhos buscamos o canto dos anjos no infinito sideral porém o que está em cima é símile do embaixo nos

Marco Villarta
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Grise
cinzas no chão cinzas no ar cinzas na alma pó devolve ao pó o que o fogo consumiu o peito não respira sufocado pelos finos grânulos memórias cinzas prelúdio e fim cinzas do tempo cinzas ao vento cinzas de mim. Marco Villarta Lavras, 17 de agosto de 2026.

Marco Villarta
há 4 dias1 min de leitura


Anjo
Anjos são perfeitas criações de muitos tipos uns, mais poderosos outros, de asas quebradas E que anunciam grandes eventos E quase participam junto Da própria criação Há os anjos com causas perdidas Acompanhando tortas estradas Vendo o humano se desencaminhar Há, porém, um tipo muito especial Os que, discretos, nem ousam saber De sua natureza celestial São os que curam as almas feridas Os que permitem à fé poder voltar Velam junto aos leitos sofridos Onde as almas tentam se re

Marco Villarta
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Varal
Penduram-se os lençóis Penduram-se os sonhos Tristonhos, alegres Penduram-se lágrimas e também os roucos suores Penduram-se poemas Fragmentos da vida A quarar no sol Aquarela, quimera Flor de gelo Que evanesce no verão Penduram-se sapatilhas Da filha bailarina Que, peregrina, Para outros voos se foi Penduram-se esperanças Lembranças de ontens Memórias consentidas Ou nunca divididas Com quem se prende a paixão Penduram-se versos Tortos, no avesso das coisas No reflexo das somb

Marco Villarta
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Mito(a)gonias
As moiras tecem humanos destinos Lúgubre trindade que regula o fio do existir Penélope destece nas solitárias noites Na inacabada mortalha, na dor da espera Não basta a perfeita tessitura de Aracne Ante a soberba invídia de Atená Não me fio no que os deuses podem urdir Nem nos labirintos com que ousam confundir o engenho humano, que com não pouca angústia fustiga o infinito em Olimpos quaisquer instinto de iludir a frágil e fugaz finitude achando que Ariadne pode, quem sabe,

Marco Villarta
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Epitáfio de um negro corpo
O corpo negro jazia no chão Não era singular Era coletivo Um metonímico plural Naquele corpo, Em cada corpo Outra metonímia Insígnia da morte Pouca sorte de quem Nada tem De quem subsiste Inexiste Na diária economia do medo No arremedo de vida Nas migalhas compartilhadas Com os cães O corpo de um preto Retinto no rigor mortis Nos negros sacos funerários Na negra escuridão Da obscura indiferença Os ancestrais e seculares grilhões Continuam ali Nos morros Nas vielas Nas subcida

Marco Villarta
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Cantiga II
Se olho no espelho vejo no rosto velho uma nova ruga apalpo os sinais da morte da pouca ou muita sorte que vivi caminhando trocando com a terra a dor escondida a coragem engolida fugida do medo arremedo de vida choro represado de tanto passado de um tanto de lida sofridas de sonhos, de gritos conflitos de morte, de vida rouco passado do destino calado do não saber desistir. Marco Villarta Lavras/MG, 12 de março de 2025.

Marco Villarta
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Liquidez
os dedos, rápidos, deslizam pelo teclado o carro flui pelas ruas e é bom esterçar para aqui e para ali a vida escorre por entre os dedos e não sei se é suave o sempre do incerto o concerto a ser interrompido o surdo estampido da última batida do cansado coração será ouvido pelos anjos ou por nós mesmos embora outros em diverso mundo em paralelo universo? Marco Villarta Lavras/MG, 05 de dezembro de 2024.

Marco Villarta
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Angelical
Para Inês Leve e doce Com o sutil voo De asas celestiais As pequenas mãos Que cuidam da alma ferida O amor paciente Discreto Como convém Aos puros afetos O meigo olhar E o sorriso que não cessa Mesmo nos mais tristes choros A fé que sustenta Os passos firmes Que convidam a sair Dos abismos mais sombrios Na minha estrada, sem esperar Surgiu um anjo Um gesto divino Uma gratidão por não estar só Por poder amar Por saber novamente Ter bússola Ter uma carinhosa direção. Marco

Marco Villarta
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Doloração
A dor adormece entorpece desce aos profundos e secretos abismos cisma de relembrar o dolorido passado e o distópico futuro A dor endurece turva a visão faz fenecer as frágeis forças retorce as mãos desvãos insônias perenes esperas ânsias atemporais angústias estilhaços fractais. Marco Villarta Oliveira/MG, 01 de dezembro de 2024

Marco Villarta
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Isolaousia
A poesia se basta Pois não é nem casta Nem impura, devassa Nos ilimitados campos é o que desconhecemos inábeis que somos E os sonhos arrefecem Na vastidão As solitárias inquietações São várias São de tantos e tantas Quanto se pode adivinhar Pois que a dor alheia É como postura do tarô Rede de arcanos Divinatórios segredos Degredos Exílios Na poesia somos crianças Brincando de cercar o impetuoso mar Com nossas frágeis palavras. Marco Villarta Lavras/MG, 16 de setembro de 202

Marco Villarta
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Sorvência
Nas noites densas Intensas insônias Fragmentadas premonições Vendo medievais cavaleiros Em lento e ritmado tropel serem meus temidos fantasmas sem rosto nem voz aparições Nas espessas névoas O frio que me veste Por sobre o corpo desproteção sei que estou Para aquém ou além do sol E o profundo espaço É puro silêncio pulsante quietude Antes de cataclísmicas explosões É avesso e anverso de infinitas criações Sobrepostos os infinitos véus As temporais camadas dos céus São também

Marco Villarta
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Probabilidades
E se as dores Fossem flores Que perfume teriam? Seriam menos belas Que aquelas que não sabemos Qual alegoria emprestam Às sensações de outros seres? E se as dores fossem rochas Talvez tochas ígneas, Talvez lancinantes cristais E se as angústias fossem Estreitos fossos Poços de água cristalina Que ao espelharem as faces Disfarçam seu sem fundo E se as aflições fossem O que são as impossíveis distâncias Reentrâncias na superfície do real E se os antigos gregos estiverem certos

Marco Villarta
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Deserto III
Deserto não é lugar vazio é minimalismo da ausência é carregar por entre invisíveis e sutis dos focos da vida a iminência do morre r a anuência dos passos não dados a dor do que ainda não se fez e do que irremediavelmente se deixou de fazer é na desolação do silêncio ouvir gritarem as interiores vozes olhar para o impossível horizonte enxergar fantasmáticas aparições dos que se foram dos que já fomos dos que jamais seremos no árido frio das noites escuras no escaldante sol

Marco Villarta
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Réquiem para um anjo de pelos
Para Pedrinho Vai filhinho Pequeno anjo Menino Pinscher Eterno pequenininho Tremeluzindo ternura Menininho doce Você me ensinou As chaves da vida Na simplicidade De somente estar Desconfio que na discreta sabedoria você foi um dos únicos seres a se embeberem do momento presente. Marco Villarta Lavras/MG, 29 de setembro de 2023.

Marco Villarta
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Silogismo
Se a divindade é eterna Se a divindade nos sonha Ainda que seja um sonho Teremos deixado algo para sempre Na mente do Ilimitado. Marco Villarta Lavras/MG, 24 de setembro de 2023.

Marco Villarta
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Condição III
Somos Sísifo Rolando a cíclica pedra Tantos Tântalos Em momentos de sede ou de fome Diante da implacável distância A saciedade foge das mãos E se do pai Prometeu Herdamos a vida e o fogo Veio-nos, também, A águia impiedosa A renovar-nos a raiva Intermitência visceral Da nossa condição Nossos déspotas Feito Midas Perecem famintos Já que o ouro não alimenta Não menos que a turba Sem termos nascido Buscamos os ermos cantos Acalanto em mitológicos seres Desfazeres dos erros human

Marco Villarta
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Enlevo
Desconfio Nos infinitos intervalos De incontáveis universos Não haver outra teia Outra sutil matéria Que pungente doçura Suave candura Do que é ilimitado E não haverá possíveis confins Para refrear o sublime Os olhos dos bebês preguiça O sono dos pequeninos cães O calor do colo materno Na doce paz do existir recente A paixão nos olhos dos enamorados O fascínio de quem descobre A serena despedida de quem se vai E, por entre tantos entrelaces, O calor do que se sabe sem dizer Q

Marco Villarta
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Espelho
Polida lâmina Não é espada De algum samurai Nem baioneta Em guerra terminal Não é sequer a navalha Com fino fio Limite entre o infinito E sintético real Diminuto espaço Construto atemporal Gume de uma única face Feito impossível moeda Sem anverso E o profundo do poço sem fim Não sabemos Do que é menos que dois Desconhecemos Estonteantemente singular Não porque seja sozinho Já que mesmo o uno É em relação Alterada metade Da outra parte Que não sabemos onde está Pode o que é lí

Marco Villarta
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