top of page

Condicional

Se o sono dos lutos

É oblívio dos vivos

Sobreviventes do caos

 

Se o silêncio dos peitos

E o trêmulo das pernas

Traz o peso dos obscuros

Labirínticos porões

 

As lágrimas que ainda vertem

Se revestem de tantas túnicas

Única estrada de pedregosa dor

 

Se a coragem quase arrefeceu

Se os pedaços arrancados de mim

Foram plena antítese do céu

Foram abraços que chegaram ao fim

 

Se por tudo isso lutei pesados lutos

E enfrentei a verborragia dos brutos

Mas os duros golpes no peito

São bem mais que matar

 

Somos sobreviventes

De armageddons, ragnaroks

Somos os errantes escribas

Na poeira de abandonadas estradas

 

Somos retalhos e andrajos

Somos incertos peregrinos

Por debaixo de negro sol

 

E, enfim, depois da esperança partir

Dos sonhos serem só básico respirar

Vemos que há que se ter luz

Mesmo sem ter olhos para ver

 

Há que voltar a coragem

Para repor os pés no caminho

Mesmo quando sangram

Pelo pontiagudo das pedras

Pelo entrar torto nos buracos

 

Há que se recriar a esperança

Porque não conquistamos uma glória

E ainda não construímos nada

 

Somos retalhos, recortes

E se somos fortes, é porque aprendemos

Tomamos por exemplo o próprio fim

  

Mas os retalhos se unem

Sob hábil mão de artesã, de artesão

E as monótonas notas

Há quem as junte

Em magistral melodia

 

Quando os densos miasmas

Deixam de cobrir os pântanos

E o escuro da noite cede lugar

A uma claridade que não é lá de fora

É luz que se relembra de alumiar

É fogo que se tinha esfriado

Sem as pessoas à sua volta

Contando histórias

 

Marco Villarta

Lavras, 31 de outubro de 2022.

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


Marco Villarta

Professor universitário, pesquisador, poeta, ensaísta, escritor, tradutor. Doutor em Letras. Nascido em São José dos Campos/SP - Brasil. Curioso pela vida e pelas pessoas, pela arte e pelos sonhos.

Membro correspondente da Academia Jacarehyense de Letras

Copyright © 2025. Todos os Direitos Reservados

bottom of page