KOTENOK*
Para Arthur Cardoso
meus olhos atentos enxergam (n)o escuro
das noites internas, externas
sou místico, é o que dizem
supersticiosos pretextos. Nonsense.
olho o mundo se mover. Apenas.
porque na placidez da displicência aparente
sou puro devir...
sou egípcio, siamês ou persa
mas não me importo: nomes não significam
acusam-me bipolar, de indecifrável humor.
mas os liames são mesmo miméticos
o hermetismo, simplesmente,
é mistério de não estar nem aí
lugares são falsas certezas
saber-se onde é enganar-se com o tempo
que, contorcionista, tudo desloca. Destempera.
sou alheio ao desespero.
respiro, ruidoso
dos telhados faço meus prados
desconheço limites.
brincar, brigar, se deixar...
recostar nas barras das calças.
vejo para além dos quintais.
sou solitário companheiro
paraninfo dos paradoxos
identificação
talvez minha melhor permanência
sejam os doidos artistas
que me fazem perdurar
no escuro da noite
silentes esfinges, disfarces dos olhos
por fim, o sorriso persiste
ao corpo se esvai.
não é isso o viver?
Marco Villarta
Lavras/MG, 10 de outubro de 2019
*Algo como gatinho, gatucho em russo




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