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Astrolábio II
a nudez do céu fez seu semblante por um instante ser meu delírio martírio despertar nessa solidão imensa dor vazio infinito nos confins do tempo quisera o amor não ter tais intervalos séculos de torpor milênios de fastio Como pude suportar Tantas vezes A alma rasgada tirada de mim Até num éon qualquer a você reencontrar Sem poder lembrar Sequer que o sofrimento Também tem pausas E que a causa do regresso É ter pregresso o interminável desse afeto o inominável desse enlace que

Marco Villarta
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Quadratura
Foste Deirdre Foste Neusa Quantos anjos E quantas deusas Terás sido Em tantas vidas Em tantos outros Dos meus eus Marco Villarta São José dos Campos/SP, 16 de outubro de 2022

Marco Villarta
3 de ago.1 min de leitura


Por tais infinitos
Onde o tempo é mera porta? Quando o espaço é lenta demora? Transubstância Errância impossível De se conhecer Alvorecer de sol sem estrela Atol sem mar, nem poeira Fileira de sombras Para quem está deste lado De multifacetado orbe De incontáveis faces Rostos desiguais Ante variados espelhos Novelos que cósmicos gatos Brincam de embaraçar ainda mais Onde e quando nos revemos Seja em túneis de luz Ou talvez em rarefeitas atmosferas Sutis quimeras de volátil matéria Intangíveis r

Marco Villarta
2 de ago.1 min de leitura


Elogio da terra
Gosto da minha terra Não por uivos ou arroubos De infantis alardes ou dessabidas alegações Gosto da minha terra Pelas gerações anônimas De pessoas cujas faces Compõem fragmentário retrato Artefato de barro primordial Moldado por centen(ari)as demãos De multicolorido verniz De peles, de dilaceradas carnes De paredes de sanguíneas tintas Hemorrágicas lutas diárias Sonhos e sofrimentos Alegrias e fazeres conjuntos Gosto da minha terra Pelas serras e pelos mundos Que tantos pés p

Marco Villarta
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Sonhos no paraíso
Se vivêssemos no Paraíso (e acaso não vivemos?) Teríamos a dádiva dos sonhos? Mas quais sonhos? Se somos todos feitos Dessa intangível matéria Se a divindade faz haurir De sua solidária natureza A necessidade de compartir A existência com frágeis seres Se vivêssemos em algum dos céus Saberíamos sonhar? Talvez os anjos não sonhem Porque são apenas mensageiros Nós, dialética mistura De longo gradiente, do mal e do bem Acho que sonharíamos, sim Porque é nosso fim Porque é nosso

Marco Villarta
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Sem você
Para Neusa Cardoso Não adianta a hora O vazio só aumenta Uma parte foi embora A que ficou lamenta Restou um quarto escuro Feito filme de terror Sem ar, sem luz, sem futuro O bolor impregnando as paredes Ando desconjuntadamente Como que somente a vegetar Impossível rearranjar A destruída criação Como pode o um viver cindido Fendido em lado iluminado O melhor de mim se foi Já não há razão, nem por quê Sempre foi você Para além de todas as vidas Sempre será Marco Vil

Marco Villarta
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Etereum
Minha alma gêmea Esposa e fêmea Irmã e amiga Cúmplice antiga De eras sem fim Anseio pelo reencontro Para, mais uma vez, Construir uma história Ainda mais bela Almejo por vê-la Desejo de tê-la Para além das estrelas E, numa dessas vidas, Enfim ter a memória Dos mundos em que vivemos Do profundo de nos termos Apesar dos difíceis caminhos Ignorando os abismos E qualquer diferença Somos única esfera Na espera da glória final. Marco Villarta Lavras/MG, 04 de julho de 2022.

Marco Villarta
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Amor
há um quê de sagrado em cada história de amor E. quanto mais profunda sua sublime construção, Mais o universo se encanta e mais cresce o fervor E não há régua para medir seu desmedido tamanho O infinito não se mensura, nem pelo que está embaixo Muito menos pelo que está acima de todos os fins Assim como nem terra, nem céus, hão de ter a dimensão Dos seres que se fundem, que se tornam indivisível unidade Há um sem tempo, um sem espaço nos atos de amor E a vida se põe à prova e

Marco Villarta
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Parábolas
Será que as palavras voam? Sei que as palavras ressoam Que se espraiam pelos tempos Pois todo infinito é um evento Irreconhecível momento Que ultrapassa qualquer espaço Que vai nos escrevendo com traços Que são mistério dentro do sonho Sonho dentro de suave delírio Será que as palavras criam? Sei que as palavras nos enviam Para insuspeitadas dimensões Que às vezes são escuros porões Outras, tantas, são redenções Será que as palavras iludem? Ainda que mudem a cada pronunciar S

Marco Villarta
2 de ago.1 min de leitura


Suave idade
Os dedos deslizam Mas não é pelas teclas Os pés que pisam A terra úmida As pontudas pedras Que rasgam aos poucos As endurecidas solas As tolas esperanças De que tudo pode ser banal E o normal é não se ocupar Do futuro incerto Do passado redescoberto Do presente a escorrer Pelo vão dos finos dedos Arremedo de sentir-se são Não é boa ideia apostar Que a loucura seja somente Máscara displicente Que mostra o rosto Que deveria esconder. Os passos vacilam No noturno perambular Pare

Marco Villarta
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Sinestesia I
Para Silvério Villalta Na mesa grande, improvisada, Daqueles idílicos natais a família italiana, ruidosa, as tias e tios meus primeiros heróis a nonna recebendo filhos e netos o tio-avô santo - no nome, até o quintal da chácara da infância único lugar de criança os primos e primas palavras que eu não sabia em vêneto e achava serem apenas um italiano rural o velho relógio em oito na sala as comidas - muitas umas trazidas, outras preparadas no vozerio alto das mammas O almoço

Marco Villarta
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Geodésica
Ao GEDISC Há sempre nas gêneses a pequenez do começo Na delicada poeira do pólen no fino talco do berçário de estrelas A vida tem suas correntes às vezes de rios outras, de elos o encontro com o outro sabe-se é sempre plural Mas, rara colheita, alguns de nós tem o privilégio de ver nascer sua egrégora, seu clã Foi daqueles círculos tantos intensos efervescentes que, depois de tantas idas, algumas pessoas sentaram no chão Em roda, estudando o mundo a palavra, a ciência e a vid

Marco Villarta
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Angelus I
Sonhei ser criança ainda e estar nas margens de um rio brincando com as lisas redondas pedrinhas No absurdo do sonho a água é que ficava parada e as pedras corriam, a criança diria, alegres a criança, no sonho, espantava-se de o céu também não se mover embora o vento ficasse parado e pairasse, amarelo, com o reflexo do sol Crianças talvez saibam de coisas que os adultos temem lembrar Não sei o que o significam os sonhos Nem porque aquele naquela noite me visitou Mas sonhos sã

Marco Villarta
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Limites I
O corpo esticado antecedência de se levantar Estranha Fazer parte do mundo Mas não sentir o que não é sua matéria Somos feitos do mesmo barro ? A mesma poeira de estrelas ? Mas por que esse silêncio dos outros corpos Essa ilha de angústia Que finda no espaço Que se limita na contagem do tempo Por que essa incomunicável solidão Alheia à geometria das rochas Ao frio design das cidades Aos olhos perplexos De tantos outros Humanos ou não. Até mesmo no interior desse corpo Desconh

Marco Villarta
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Entrecorpos
Imprecisas fronteiras Entrelugares Intertempos Intempéries Intemperanças Serão as palavras Nosso único legado ? A prisão do simbólico De vivermos no oblíquo Nas tangentes do existir Nos transversos E enxergamos, binários, Os versos e avessos Nos quases da máquina do mundo Sobraram as migalhas do sonho E podemos, ainda, Alucinar em fictícias dimensões Descontínuos fluíres Desgeométrico devir. Marco Villarta São José dos Campos/SP, 18 de julho de 2018.

Marco Villarta
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Dialética
Na selva escura Havia um portal Quem me espreitava ? O leopardo de Dante ? A onça de Rosa Talvez os tigres e jaguares de Borges. Um labirinto pode não ter paredes E ser a porta que não sabemos para onde Para quê Por quê. Entre os ventos elísios E a calmaria das águas do Estiges Há pradarias Estreitas cavernas A que reino pertencem os mistérios ? São plantas, nutridas de luz Respirando vida na placidez das florestas ? São pedras, cristais, Crescendo geométricas na indiferente

Marco Villarta
1 de ago.1 min de leitura


Emblemas
Quantas sutis insígnias Quantos índices Quantos signos Esmaecendo Esvanecendo-se Assim Quantas noites sem fim Adentrando os dias Sem licença nem pudor A dor que fica Ilusão achar conforto Se morto explica O perder-se em desatino Não mais em desespero Não mais em agudo pranto Tanto quanto A vida decanta-se em fino talco Pó que se esgota lento No desalento do palco já sem luzes Sem plateia, nem sequer teatro As máscaras jazem encostadas No desalinho dos escombros No descuid

Marco Villarta
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Rios
nos rios do mundo há de existir um que seja o Estiges outro, o Lete águas cálidas do Nilo frias correntes do Aqueronte talvez, depois, haja aqueles rios que prescindem da água e das fortes correntes quem sabe o vislumbre de João Cabral pois que é possível haver os rios não sem os discursos mas os de caudalosos silêncios rebentando em pedras-palavras somos, frágeis musgos, enverdecidos resquícios dos rios sem água das nuvens sem chuva do mistério do tempo. Lavras/MG, 2021

Marco Villarta
1 de ago.1 min de leitura


Contabilidade
Qual o valor de existir ? Não há Porque é acaso É fortuna Dádiva das probabilidades Alteridade com o que não veio a ser Algo vale para alguém Mas quem subsistirá ao último lampejo ao sopro derradeiro ao encolhimento final símbolos são a outra face espelho das coisas pela linguagem (re)criamos mundos Num desses Há de estar uma musa Melhor que seja Mnemósine Com olhos absortos ela há de olhar para o infinito passado e na solitária contemplação há de solfejar um suspiro com alí

Marco Villarta
5 de jul.1 min de leitura


Deirdre of sorrows
Quando fomos celtas Doeu em nós Em nosso impossível amor O lamento de perda tão brutal Por que o corvo de negras penas Não pode voar livre pelos campos? Por que a torre que prende Perdura, e, mesmo quando, Felizes, se amavam Em outros solos de celta moradia? Sim, eu me lembro Do instante Em que lá nos conhecemos Seus cabelos ruivos, presos Em delicadas tranças E sua voz em trêmulo falsete Cantando as dores Que seriam nossas Hoje sei por que Estremeci Pensei te conhecer Mas co

Marco Villarta
16 de abr. de 20231 min de leitura
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