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Sinestesia I
Para Silvério Villalta Na mesa grande, improvisada, Daqueles idílicos natais a família italiana, ruidosa, as tias e tios meus primeiros heróis a nonna recebendo filhos e netos o tio-avô santo - no nome, até o quintal da chácara da infância único lugar de criança os primos e primas palavras que eu não sabia em vêneto e achava serem apenas um italiano rural o velho relógio em oito na sala as comidas - muitas umas trazidas, outras preparadas no vozerio alto das mammas O almoço

Marco Villarta
há 4 horas1 min de leitura


Geodésica
Ao GEDISC Há sempre nas gêneses a pequenez do começo Na delicada poeira do pólen no fino talco do berçário de estrelas A vida tem suas correntes às vezes de rios outras, de elos o encontro com o outro sabe-se é sempre plural Mas, rara colheita, alguns de nós tem o privilégio de ver nascer sua egrégora, seu clã Foi daqueles círculos tantos intensos efervescentes que, depois de tantas idas, algumas pessoas sentaram no chão Em roda, estudando o mundo a palavra, a ciência e a vid

Marco Villarta
há 4 horas1 min de leitura


Angelus I
Sonhei ser criança ainda e estar nas margens de um rio brincando com as lisas redondas pedrinhas No absurdo do sonho a água é que ficava parada e as pedras corriam, a criança diria, alegres a criança, no sonho, espantava-se de o céu também não se mover embora o vento ficasse parado e pairasse, amarelo, com o reflexo do sol Crianças talvez saibam de coisas que os adultos temem lembrar Não sei o que o significam os sonhos Nem porque aquele naquela noite me visitou Mas sonhos sã

Marco Villarta
há 5 horas1 min de leitura


Limites I
O corpo esticado antecedência de se levantar Estranha Fazer parte do mundo Mas não sentir o que não é sua matéria Somos feitos do mesmo barro ? A mesma poeira de estrelas ? Mas por que esse silêncio dos outros corpos Essa ilha de angústia Que finda no espaço Que se limita na contagem do tempo Por que essa incomunicável solidão Alheia à geometria das rochas Ao frio design das cidades Aos olhos perplexos De tantos outros Humanos ou não. Até mesmo no interior desse corpo Desconh

Marco Villarta
há 5 horas1 min de leitura


Entrecorpos
Imprecisas fronteiras Entrelugares Intertempos Intempéries Intemperanças Serão as palavras Nosso único legado ? A prisão do simbólico De vivermos no oblíquo Nas tangentes do existir Nos transversos E enxergamos, binários, Os versos e avessos Nos quases da máquina do mundo Sobraram as migalhas do sonho E podemos, ainda, Alucinar em fictícias dimensões Descontínuos fluíres Desgeométrico devir. Marco Villarta São José dos Campos/SP, 18 de julho de 2018.

Marco Villarta
há 5 horas1 min de leitura


Dialética
Na selva escura Havia um portal Quem me espreitava ? O leopardo de Dante ? A onça de Rosa Talvez os tigres e jaguares de Borges. Um labirinto pode não ter paredes E ser a porta que não sabemos para onde Para quê Por quê. Entre os ventos elísios E a calmaria das águas do Estiges Há pradarias Estreitas cavernas A que reino pertencem os mistérios ? São plantas, nutridas de luz Respirando vida na placidez das florestas ? São pedras, cristais, Crescendo geométricas na indiferente

Marco Villarta
há 6 horas1 min de leitura


Emblemas
Quantas sutis insígnias Quantos índices Quantos signos Esmaecendo Esvanecendo-se Assim Quantas noites sem fim Adentrando os dias Sem licença nem pudor A dor que fica Ilusão achar conforto Se morto explica O perder-se em desatino Não mais em desespero Não mais em agudo pranto Tanto quanto A vida decanta-se em fino talco Pó que se esgota lento No desalento do palco já sem luzes Sem plateia, nem sequer teatro As máscaras jazem encostadas No desalinho dos escombros No descuid

Marco Villarta
há 7 horas1 min de leitura


Rios
nos rios do mundo há de existir um que seja o Estiges outro, o Lete águas cálidas do Nilo frias correntes do Aqueronte talvez, depois, haja aqueles rios que prescindem da água e das fortes correntes quem sabe o vislumbre de João Cabral pois que é possível haver os rios não sem os discursos mas os de caudalosos silêncios rebentando em pedras-palavras somos, frágeis musgos, enverdecidos resquícios dos rios sem água das nuvens sem chuva do mistério do tempo. Lavras/MG, 2021

Marco Villarta
há 7 horas1 min de leitura


Contabilidade
Qual o valor de existir ? Não há Porque é acaso É fortuna Dádiva das probabilidades Alteridade com o que não veio a ser Algo vale para alguém Mas quem subsistirá ao último lampejo ao sopro derradeiro ao encolhimento final símbolos são a outra face espelho das coisas pela linguagem (re)criamos mundos Num desses Há de estar uma musa Melhor que seja Mnemósine Com olhos absortos ela há de olhar para o infinito passado e na solitária contemplação há de solfejar um suspiro com alí

Marco Villarta
5 de jul.1 min de leitura


Limites II
Abstratos braços Num abraço intervalar E o vazio do meio Fica cada vez mais Cheio de ausência De distância De em vão procurar A razão de fracassar Em deter o tempo Momento Vacância Supremo sono Dor sem dono Oblação Altar. Marco Villarta Lavras/MG, 29 de junho de 2022.

Marco Villarta
29 de jun. de 20221 min de leitura


Fazer a dor
Faço arte Como quem brinca Sem promessas Sem culpa Desobrigado das normas De cânones Compromisso com a vida Com o instante Artesão ? Falsificador ? No Rio de Heráclito Platão não saberia nada(r) Vou fazendo Remando pelo Estiges Esvanecendo no Hades Haverá palavra imortal ? Marco Villarta Lavras/MG, 10 de maio de 2017

Marco Villarta
7 de jun. de 20221 min de leitura


Siameses
Diz antiga tradição que o deus emanou de si universo insondável nos limites da matéria quis saber de si ter a impossível revelação ver-se outro em cada ínfimo elemento Nós, que não somos deuses, nos dedicamos às artes e aos sonhos Onde restarem dois de nós contando uma história fingindo-nos lembrar o que é sempre o gesto futuro de saber-se vivo para além do tempo... Nisso vemos na face do espelho dos éons o que talvez supomos ser nossa face divina entre o sonho de lembrar e

Marco Villarta
5 de jun. de 20221 min de leitura


Egéia
desmedidas Assim métricas as faces de Jano olhando no espelho Retrato cubista horror de seu duplo Nem Zeus com seus raios soube deter as lágrimas do touro vendo-se nos olhos que um humano teceu Há no tártaro deuses vencidos dormentes Somente um riso ecoa no profundo do Hades Sabem que não estarão sós Das trevas do nada olham para nós Somos os próximos Breve Seremos menos que o pó. Marco Villarta São José dos Campos/SP, 28 de fevereiro de 2020

Marco Villarta
5 de jun. de 20221 min de leitura


Esperança
Talvez Eu seja feliz amanhã Porque com matéria de tempo Não se brinca Hoje já me basta tentar Entender o ontem Perscrutar o instante atual Saber-me vivo, pensante E o ontem ? Esfuma-se, feito O vidro sujo da janela Impedindo a visão Já meio turva Do semiacordar Talvez Eu seja feliz Quando souber Que a vida foi só uma cantiga Dessas de criança E que basta repetir e dançar. Marco Villarta São José dos Campos/SP, 06 de março de 2019.

Marco Villarta
5 de jun. de 20221 min de leitura


Alterofobia
Quem é meu outro ? Pergunta repetida, questão requentada filosofias e teologias Cosmogonias diversas Seja nas cavernas Pétreas ou digitais Estranhamos o vulto Não decifrado na longa distância Mais fácil soltar a lança Antes de saber se é uma visita amiga Talvez um caçador perdido Em terras desconhecidas Quantos nomes temos para quem não é nosso ? Nosso ? Os mesmos coletores Pedras ou gadgets, pouco importa Alguns colecionam riscos na parede De corpos e almas abatidos Posse ?

Marco Villarta
5 de jun. de 20221 min de leitura


Escatologia
Quanto dura a viagem ? Qual o destino Desatino Desato os nós Mas sem outros Somos sós Perder-se no caminho Até tornar-se a própria estrada Já não sei mais quantas Desistências De existências Que já não poderiam mais ser Vivo aprendendo o devir Mas saber-se agora É desconhecer-se antes Ter medo do suposto depois Inundar-se na lágrima Que ainda não caiu Afogar-se no suor Ainda por escorrer Se o cansaço deixar Pois que há um cansar-se De poder se cansar Um viver que é exercício

Marco Villarta
5 de jun. de 20221 min de leitura


Lares
Chego em casa O cansaço do corpo Como que uma ausência de alma As sandálias se arrastam Detenho meus olhos na chama dos lares Nas escarpas alaranjadas das chamas Vejo o futuro e não o passado Por um átimo Encontro com os olhos Piedosos interrogativos De filhos que não terei De gerações que pisarão O chão sem saber Que seus calçados Carregam um pouco de mim Pó que voltei a ser Tornarei às montanhas Ao fundo dos mares Quem sabe às estrelas De onde saímos todos Na face crestada

Marco Villarta
5 de jun. de 20221 min de leitura


Gramapathica
Sento-me diante do papel Em branco Na névoa de um impreciso tempo Entrevejo Na transparência do delírio Que pode ser lembrança Platônica reminiscência Uma fila enorme de escribas Seu trabalho é lento Há um silêncio Não sei se sagrado Não sei se secreto Vejo os rostos compungidos A tensa expressão de trabalho sinto que algo sangra Das dores muitas há a das lâminas as que não cicatrizam as que ferem também pela memória do corte Quantas metonímias Na bruma dos séculos A caneta o

Marco Villarta
5 de jun. de 20221 min de leitura


Serpente
Naquele rio de águas geladas Escondido dos olhos Pelo distante marulho sem sal Por um cheiro de mato molhado Nesse éden recôndito São as pedras que batem na água Ou será que elas brotam do nada Refazendo em miniatura Os primeiros dias da criação ? Marco Villarta Lavras/MG, 27 de setembro de 2017

Marco Villarta
5 de jun. de 20221 min de leitura


Holos
Que será de mim Quando tiverem passado as pessoas que conheço Que será das pessoas que me conhecem Quanto eu já não estiver Por aqui Imagino multiversos Dimensões mirabolantes Na esperança de alguma perenidade Da memória subsistir Do não ter sido em vão De cada sonho Cada ínfima dor Não cessar sozinha Não acabar dentro Incomunicável Talvez sejamos Lapsos de luz Estrelas errantes Grânulos ínfimos De poeira estelar Talvez apenas Sejamos um E de múltiplos espelhos Tentemos somen

Marco Villarta
5 de jun. de 20221 min de leitura
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