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Sinestesia I

Para Silvério Villalta

Na mesa grande, improvisada,

Daqueles idílicos natais

a família italiana, ruidosa,

as tias e tios

meus primeiros heróis

a nonna recebendo

filhos e netos

o tio-avô

santo  - no nome, até

o quintal da chácara da infância

único lugar de criança

os primos e primas

palavras que eu não sabia

em vêneto

e achava serem apenas

um italiano rural

o velho relógio em oito na sala

as comidas - muitas

umas trazidas, outras preparadas

no vozerio alto das mammas

O almoço longo

as saudades, reencontros

os mortos antigos

ali, de alguma forma,

presentes, narrados

E, muito depois de todos

estarem saciados

um tio ainda lá, comendo lento

dedicando o cuidado

à arte de lamber os ossos

beber o vinho de garrafão

e contar, rindo,

os casos antigos

viagens

namoros

pescarias

superações

A memória é algo curioso

parece fugaz

algo que nos escapa

Porém é o que temos de mais sólido

somos o que nos lembramos

e lembrar-se

é, mais do que tudo,

contar para o outro

seja na solidão de um refúgio

ou na multidão que nos cerca

No final, no nosso, no de nossos entes queridos

fica o que contamos

o que fomos capazes de dizer

com nossas lembranças.

As palavras, na memória,

nem são lineares

elas pintam esses quadros abstratos

esculpem essas estátuas diáfanas

que só os sonhos acolhem

que nossos outros

guardam nas gavetas da alma

como um paramento sagrado

Na eternidade - real ou fictícia

é com eles que estaremos vestidos

é com eles que nos reconheceremos.

 

Marco Villarta

São José dos Campos/SP, 27 de julho de 2020

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Marco Villarta

Professor universitário, pesquisador, poeta, ensaísta, escritor, tradutor. Doutor em Letras. Nascido em São José dos Campos/SP - Brasil. Curioso pela vida e pelas pessoas, pela arte e pelos sonhos.

Membro correspondente da Academia Jacarehyense de Letras

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