Sinestesia I
- Marco Villarta

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Para Silvério Villalta
Na mesa grande, improvisada,
Daqueles idílicos natais
a família italiana, ruidosa,
as tias e tios
meus primeiros heróis
a nonna recebendo
filhos e netos
o tio-avô
santo - no nome, até
o quintal da chácara da infância
único lugar de criança
os primos e primas
palavras que eu não sabia
em vêneto
e achava serem apenas
um italiano rural
o velho relógio em oito na sala
as comidas - muitas
umas trazidas, outras preparadas
no vozerio alto das mammas
O almoço longo
as saudades, reencontros
os mortos antigos
ali, de alguma forma,
presentes, narrados
E, muito depois de todos
estarem saciados
um tio ainda lá, comendo lento
dedicando o cuidado
à arte de lamber os ossos
beber o vinho de garrafão
e contar, rindo,
os casos antigos
viagens
namoros
pescarias
superações
A memória é algo curioso
parece fugaz
algo que nos escapa
Porém é o que temos de mais sólido
somos o que nos lembramos
e lembrar-se
é, mais do que tudo,
contar para o outro
seja na solidão de um refúgio
ou na multidão que nos cerca
No final, no nosso, no de nossos entes queridos
fica o que contamos
o que fomos capazes de dizer
com nossas lembranças.
As palavras, na memória,
nem são lineares
elas pintam esses quadros abstratos
esculpem essas estátuas diáfanas
que só os sonhos acolhem
que nossos outros
guardam nas gavetas da alma
como um paramento sagrado
Na eternidade - real ou fictícia
é com eles que estaremos vestidos
é com eles que nos reconheceremos.
Marco Villarta
São José dos Campos/SP, 27 de julho de 2020



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