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Filosofia intermédia
Quantos orbes haverá acima do que vemos ? Quantos mundos seremos capazes de sonhar ? Quantos gênesis conseguiremos imaginar... Penso em quantas mitologias podemos construir E vejo, com apreensão, que não bastam os inícios Há, igualmente, uns quantos apocalipses, Espetaculares e triunfantes armagedons Falta, sempre, um utópico caminho do meio A simples atenção para com o fugidio agora A humilde gratidão por termos o que não entendemos Já que a razão é simplório vagalume diante

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Glasa
Há nos olhares um quê de espelho Quando um olho se encontra em outro Há orbes em órbita, há divina criação Mas é do feitio do universo ser recorrente Sonhos dentro dos sonhos, olhos dentro dos olhos, Almas que imbricam, feito raízes, rizomas E nesse trançar de fios de Aracne deuses tecem delicada tapeçaria, filigranas de sutil ourives Ao contrário de Borges, não temo jamais os espelhos Porque o que neles mais me encanta é o (in)exato Fato de olhar para fria superfície e senti

Marco Villarta
4 de jun. de 20222 min de leitura


Iniciação
Mistério é arcano, enigma Astuta e ambivalente esfinge Requer sempre solene respeito Impõe, pela dor, reverente silêncio Exige manter os olhos cerrados Não se olha impunemente Em direção a intensa luz Não foi feito para corpos de barro Animados com sopro tão fugaz É lugar interditado, eterno não-saber Se fosse um ente, mitológico ser Acho que, no fundo, seria piedoso De tão frágeis cosmonautas Viajantes efêmeros no tempo e no espaço Ante nossa impotência frente ao existir Cre

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Deslume
Para Neusa Cardoso Aprendi que as cores desbotam Culpa da imprecisão da escola As cores nem estão nas coisas... Mas, enfim... aprendi com as crianças o exercício da imaginação Imaginei que as cores desbotam Sem precisar saber dos fótons Foi bom ser assim Nesse então, descobri que as cores se apagam Com sua partida, virei daltônico vendo o mundo em tons de cinza Mas não tive álibi em honrar sua memória E a sublime beleza da nossa história Por isso, as cores voltam Mas as cores

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Travessia
A viagem é sempre incerta Sem paradas definidas Sem despedidas programadas Há tantas paisagens A maioria se perde dentro da nave Em querelas insensatas Sem prestar atenção nas escotilhas Mesmo, eu, que converso pouco E brigo menos ainda Sinto perder tantos detalhes Queria entender o olhar atento E a língua astuta das pequenas lagartixas Ver o que veem as águias no topo das montanhas Compartilhar o descanso preguiçoso dos ursos Ou a pressa das abelhas por viverem tão pouco Gos

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Desloucamento
Faço escolhas trocadas Visto no avesso as cores do dia De perto sou invisível De longe, espectral Sou fantasma no meio dos loucos E nem sozinho pareço normal Talvez digam que sou contra a corrente Ou que finjo, vaidoso, ser muito especial O fato – ou (a)versão É que sou como todos os outros Apenas sei que não me conformo aos moldes E que me dá prazer brincar de duvidar Diferente daquele que acha que existe Porque duvida de si Apenas me comprazo com as cismas E nelas encontrar

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Vertigo
Arquitetos da compreensão Tentamos construir explicações Tecemos no ar, na névoa Desenhamos no spray da chuva fina Sabemos lá quantos modelos Falhamos sempre Quando se trata do principal Onde a substância do tempo Onde a efêmera duração dos atos Quando a permanência dos juramentos Somos cordão, corrente, encadeados E somente prosseguimos Enigmática procissão o existir Os interruptos, todos os cessares Mas também os inícios, as gêneses E tudo de intermédio, no continuum Como d

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


DE AMANDI NATURA
O que dizer do amor ? Se as palavras são um chão sem dono Como tomar posse de seus símbolos ? Dizer o amor pode ser ambíguo Já que símbolo é uma coisa no lugar de outra Mas há amor sem o dizer do outro A quem dizemos amar ? Nesse dizer-fazer O amor sabe não saber-se Desconhece-se descobrindo-se Reconhece-se renascendo Dizer o amor é enfrentar o clichê Porque há mais pessoas que palavras É, também, estar face-a-face Com o incomunicável Da coexistência em corpos separados Mas,

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Sagitário
Para Gilda Vilarta Onde estão seus olhos carinhosos Onde seu jeito de não machucar Restam só os retratos Só as memórias As lembranças das festas de aniversário As casas suas que eu visitava O brincar de carrinho com as compras A inigualável polenta frita Os bolinhos de chuva, redondos Que chamei de pedrinhos A hospitalidade O jogo de buraco O sorriso doce A cumplicidade de sagitarianos Resta a dor Da distância Da geografia que separa as pessoas queridas Do tempo que afasta os

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Itinerário III
Se mente, calo Falo somente Desminto Consinto Um pensamento O momento exato Fato de discutível percepção Decepção o real (não) ser assim Fim de todas as certezas Beleza incomum O sentido estar em quem vê Se houver o encontro dos olhos Solos de instrumento imperceptível Audível só no eterno devir No meramente fluir Vivo, só mente Corpo em descompasso Repasso o que vivencio Cio do existir (re)nasço pra sentir. Marco Villarta Lavras, 25 de outubro de 2021

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Antiespelho
Olhei-me no espelho A unidade do corpo De repente Mesclada Na sombra Penumbra Névoa Do não-ser Caleidoscópio Braços Mãos Olhos Um nariz Pernas Flutuando No espaço da sala Mas o que é o espaço ? De repente Escuridão Pois os olhos Precisam De um rosto Onde Fixos Fixam as coisas As pessoas Os contornos De si Marco Villarta Lavras, 17 de novembro de 2016.

Marco Villarta
3 de jun. de 20221 min de leitura


A esquina do tempo
A esquina do tempo é logo ali é logo agora Não sei se esquina ou círculo sem fim perambulamos por isso nossa obsessão por ciclos ilusória maneira de contar o incontável devir o fluir do rio é também do fogo do éter aéreo, fugaz talvez, mesmo, a própria terra não seja menos fluida como diria o velho Borges talvez o repouso de quando evanescemos depende da memória alheia efêmera maneira de nos ligarmos entre as metades do nada do desconhecido de onde viemos para o imponderável

Marco Villarta
3 de jun. de 20221 min de leitura


Eco 2
Cismo em meio à indolente solidão Como será o eco do silêncio ? Imagino, em tosca suposição, Que nesse eco de coisa alguma Reverbera A espera da espera da espera Marco Villarta Lavras, 16 de janeiro de 2022.

Marco Villarta
3 de jun. de 20221 min de leitura


História
Para Neusa Cardoso O que faz ver No outro O indizível do amor ? Atração. Mas o magnetismo não é Somente de ímãs É eletricidade Faísca Fagulha Centelha. Fogo primordial O que me atraiu em ti ? Mais que teu corpo Mais que o espaço Que os meus olhos Esboçaram de ti Foi um tempo que descobri No arrepio que Me fez desvelar Já te conhecer De outros universos De sonhos atávicos De versos não escritos. Não foi o sorriso Que iria saborear Não foi a curva dos seios Que ainda tentaria a

Marco Villarta
3 de jun. de 20221 min de leitura


Labor extinto
Loa, cantiga, louca, antiga Se voo, persigo seus sonhos Se durmo, consigo, sem razão, Desatar o que coração desliga. Magoo as memórias, anteponho Ao presente. Os dias virão ? O que podem, meus pés ? Fazerem, nus ? Afundar no charco, fixar a terra ? Loucura é um marco, talvez ser, Nos desvãos, uma réstia de luz Quem sabe o grito que berra A fera insana de tanto tecer Os fios do labirinto minoico Ariadne a roupa não destece Nua, a verdade entrelaça em teias A complexa trama do

Marco Villarta
3 de jun. de 20221 min de leitura


Parodoxego
Dizem que sou (in)tenso Mas não sei responder Esquizofrenias Manias Arritmias Do corpo Da alma. Não sei se Falta sentido Na fala dos loucos E se eles se entendem É, será, por que Há um saber Para além do sentido ? Se penso, Se sei de minha dúvida Insolúvel Talvez não seja Pelo que sou, sozinho Talvez a alma dos loucos Pungente Sobressaltada Febril Seja espaço de outros E, se insano, Sei que me sinto A (des)razão seja Porque quem me sabe Dentro de meus porões Dos sótãos soturn

Marco Villarta
3 de jun. de 20221 min de leitura


Folgazê
Uni dune tê O Universo me deu você Uni dune tê Meu universo é você Uni dune tê Meu verso é você Marco Villarta Lavras, 17 de janeiro de 2017

Marco Villarta
3 de jun. de 20221 min de leitura


Curiosidade
Encontrei amigo alienígena Me perguntou o que é o doer A resposta não é simples Para quem vem de mundos outros Mas, pensando bem, na pergunta Eu disse que é como fazer passar o ar Pela imensidão do nosso oceano: O que mais pesa na dor Não é o agudo sofrimento Nem mesmo o lamentar É a inexplicável lonjura Da solitária caminhada. Marco Villarta Lavras, 21 de janeiro de 2022.

Marco Villarta
3 de jun. de 20221 min de leitura


Epifania in scherzo
Ouço uma música Vejo o colibri Nas árvores poucas Do meu quintal. O meu ser Distrai-se da morte diária Encanta-se Enternece-se Há tanta lindeza No fortuito do acontecer Seja humano ou alheio À nossa condição. Por um efêmero instante O dedilhar de um violão Me leva a ser Outro que não eu E sei, por breves frêmitos de tempo, O que é ser um duende Uma salamandra Ou um elfo. Uma gota de um orvalho cósmico Refresca minha inevitável solidão Sou um ser imaginário Que sai dos sonhos

Marco Villarta
3 de jun. de 20221 min de leitura


Arqueologia
Uma forma quase humana Chora uma dor inominável Sobre uns ossos de seu clã Não suspeita, no som que grunhe O fazer ritual dos descendentes Milênios, muitos milênios depois Outros cantos, outras danças Fazem o brilho dos olhos de um Serem a certeza de todos Pulsos, ritmos, sons Versões do rito Versões do contar Há rodas, há assembleias Ao redor da fogueira Em ágoras de tantos formatos Aedos Rapsodos Constroem, nos séculos, o seu fazer É teia que nos salva do labirinto Da incon

Marco Villarta
3 de jun. de 20221 min de leitura
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