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Cosmogonia
Há por entre cada pedaço de nós distâncias infinitas mesmo que em diminutas escalas Portanto, não é estranho que sejamos ausências pontilhadas pelo pulsar de pouca solidez Se há dores que permanecem fortes Se os vazios se mantém profundos é porque entre os tantos mundos as mortes parecem mais do que são é difícil lidar com os fluidos contornos ectoplasmáticos, sutis fios de cósmica seda que as aracnes do tempo tecem sem pressa peça por peça em infinito tear e nos ínfimos pont

Marco Villarta
4 de jul.1 min de leitura


Silêncio
A fala que falta Na flauta de Pan Pandora que levanta Tanta dor de existir A falta que fala Cala os mais belos sons Tons de puído sépia Pias de sacrílega iniciação Ação de resignado andor Dor de caminhar tão só Só desde os mais antigos inícios Indícios do esquecer A desaquecer a angústia da alma Calma e frágil derrota Rota que traça a rota Dos medos mais primários Relicários dos nossos Próprios ossos Em que poço caíram A voz que agora silencia E sentencia a minha solidão. M

Marco Villarta
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Infinitos
Infinito são dessaberes sem fim Assim meio mal ajambrados São as fortes gotas de chuva nos telhados Quando parece que não vai parar É o medo do escorrer dos mistérios Quando o frio mais frio Não é o das juntas que doem Quando o tirintar dos ossos Já não se pode mais ouvir Infinito é o todo dentro do todo Sem jamais terminar Infinito são os sonhos deslembrados É a memória dos toques no alheio corpo Que estremecem nossas razões de existir Marco Villarta Lavras, 26 de junho de

Marco Villarta
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Velocidade
Não é nada. Isso passa As alheias dores Na egocêntrica pressa De sorrir para a próxima selfie Não é nada. Isso passa Os laços desfeitos As rasas interações Não é nada. Isso passa O compromisso para com os outros A responsabilidade pelas decisões Não é nada. Isso passa A autocrítica natimorta A consciência de si Não é nada. Isso passa A sádica destruição dos inocentes bichinhos A fúria que assassina os vegetais A soberba de falar dos extermínios Não é nada. Isso passa. É só a

Marco Villarta
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Prisma
De que cor É o cinza das tardes tristes Ou as cinzas da alma Que se consumiu De que cor É a escuridão das noites frias E a visão do poço profundo De que cor É o vermelho do sangue perdido Nas periféricas vielas Nas imprecisas trilhas Dos desamparados De que cor É o azul dos corpos sem vida Ou do horizonte que não se alcança De que cor É o furta-cor dos crepúsculos sombrios E sua angústia dos projetos desfeitos Das devastadoras perdas Dos irremediáveis finais. De que cores são

Marco Villarta
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Roleta
Quero novamente Namorar com seus sonhos Flertar com suas memórias Me encantar com seus olhares Arrastar-me pelo intervalo Dos seus passos Quero sorver o ar dos seus suspiros Me embebedar nos seus sorrisos Aterrissar nos cabelos lisos Segurar as mãos suaves Quero novamente Apaixonar-me pelas incertas eras Em que fomos não sei nem o quê Mas sei que fomos um Nos elos da corrente sem fim Sei que somos esfera Indivisível, eterna espera Alma Quero novamente a calma De saber-nos jun

Marco Villarta
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Indecisão
que faço eu com a falta o vazio sombreia a alma a calma sombra congela a vida, fustigada planta tanta coisa adiada tento cuidar de mim por você cada dia junto os fragmentos sentimentos memórias no rodamunho o mundo se sobrepõe a força vital se decompõe e o ser perplexo vira névoa esfacela-se feito areia e desnomeia o que já não há o que faço com a falta o que já não está. Marco Villarta Oliveira, 14 de junho de 2026

Marco Villarta
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Inespelho
A inesperada face Surge da escura noite O inesperado olhar Emerge do vazio sem fim A vida sendo vida O carinho sutil A extrema dedicação Inesperado afeto Que se projeta dos redemoinhos Que poreja das fluidas correntes Pois o rio que escoa É, antes, mina que brota Aguda nota que toca O coração despedaçado E nesse inesperado encontro Há suave beleza Há profético destino As histórias de dores Perdas e mortes O inesperado é uma vida Encontrar(se n) a outra Inesperada dádiva Grato

Marco Villarta
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Aquarela
Feito um anti Dorian Gray Deixo pedaços de mim Pelos lugares em que passo Pelos tempos que percorro Pelas pessoas que me afetam Já não sei se sou Humano ou espécie de planta Espalhando esporos Distribuindo sementes de mim E nas pessoas que perco Devolvo a elas Seja em que universo for Os pedaços de si Que me fizeram ser Então me conforto Trocamos pedaços Feito quadro de Magritte Nos desenhamos Uns aos outros E quando fica rota a tela E empalidecem as cores Nossos pedaços vão

Marco Villarta
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Thaumagramática
Quando sofro, escrevo Não sei se quando A alegria briseia qual silencioso sussurro também transcrevo impossíveis símbolos Platão estava errado Escrever não é falsear Pois ele mesmo sabia Que tudo é Quando escrevo, sofro Como se Tântalo Estivesse no rio de Heráclito E, sedento, ao se banhar Não pudesse beber Das águas do tempo Do transparente néctar Da misteriosa vida Nas turbulentas águas Vejo o estilhaçado reflexo E nele os círculos do mundo Encadeiam-se em irônica Contradiç

Marco Villarta
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Ciclos
Para minha mãe Vejo os velhos velharem Tais como as crianças Que mareiam Espraiando-se em devir indefinido Há um quê de inocência Recuperado paraíso Para quem já se esquece Dos frutos que comeu A divindade brinca De bolhas de sabão Esferas perfeitas De inusitada redenção Os que se esquecem Veem todas as árvores Como inéditas criações Diferentes, mas iguais Em sua sublime aparição E, imagino No sem palavra desse retornar Vislumbram a ilimitada face Incapaz de qualquer maldição

Marco Villarta
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Crono(a)gonia
a hora incerta é pra frente e para trás o aqui não é presente é tempo nenhum e se não sabemos o que virá também já não o que se foi memória é dádiva que a musa nos concede de inventar o que pensamos terem sido nossos feitos nesse tear sem direção Aracne se conforma com o ciumento fado dos arrogantes deuses tece, em múltiplo infinito viés e o tempo da tarefa não é fio de seda nem generosa lâ é a areia que escorre inexorável feito fluente rio cio do estertor que imitamos das tr

Marco Villarta
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Nêmesis
qual substância há no peito sob as fibras pulsantes por sobre as flagrantes marcas velhas arcas arqueológicos baús onde os sonhos e as esperanças mofam, moram juntos mas há no verde e fino astropó regolito de passadas estradas encantadas veredas proibidas para os decididos pés interditas para a fria razão Há, então, nesse cósmico talco alimento para incônscios fungos que, em sua luminescente digestão, ignoram a matéria que consomem a história que transmutam No final, não há e

Marco Villarta
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Toada
Os ritmos da vida Que nem visitas Bem fora de hora Redobram os galhos Moinhos, redes De fasto, invés Qual vórtices afins Espanam as almas Poeira que trazem Esquecem de si E aí transmutam o Fugaz do êxtase Enganam ainda O que se alter(n)a (n) o imóvel da morte O já (des)enxergar Os passos da dança Se a luz não sabe de si O tempo de tudo o mais Quem somos (os) nós A-linha-v(o)ando além das linhas Das nuvens ou p(l)anos Profanos mistérios Saberes no nada Toada de carro-de-boi es

Marco Villarta
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Natureza morta
O meio-pão esquecido no prato sobre a mesa A chave de fenda perdida no vão do armário nunca mexido a gaveta entreaberta com seus caóticos pertences a boca entreaberta na memória do outro que tenta adivinhar a palavra não dita a hesitação em dar o passo e o momento capturado na artística foto do movimento suspenso ao mesmo tempo parado e eterno a natureza morta que estica sua espera de que as frutas apodreçam que os olhos se cansem que os pinceis endureçam da tinta que o pint

Marco Villarta
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Sublime cantiga
Nana nenê Nem tente acordar Sonhe com os sons Dos que ainda respiram Nana nenê Vele com seu sono suave Pelos que morrem Nas guerras dos sádicos Pelos endividados Pela ganância de uns poucos Nana nenê Durma como se Dores não houvesse Mesmo se alvorece Não abre os olhinhos Ainda Talvez o real do mundo Sejam seus sonhos E nós, nas despertas horas, É que alucinamos Nos pesadelos sem fim Nana nenê Imita o sublime sono dos cães Imita a preguiça dos gatos Quando seguros se sentem Na

Marco Villarta
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Pra que mais?
Para Antonio Luiz Assunção – in memoriam As pedras são metáforas Dos cotidianos problemas Morfemas de duras sintaxes Gerativas paralaxes Pedras são metonímias de coisas maiores Planetas, galáxias, universos inteiros Pedras são hipérboles de diminutos regolitos Do talco de estrelas de que somos forjados Pois antes do barro e do sopro Há o fino pó do colossal estertor Frio sarcófago do que já foi tanta luz De cada grande estrela que se reduz A quase invisível cósmico glitter Ma

Marco Villarta
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Избыток*
Foi quando fitei profundamente O infinito dos seus olhos A íris com seu escarpado relevo Desafio de insensato allpinista A pupila em seu abismo sem fim Interminável mergulho Sem escafandro Para além dos submarinos Horizonte dos eventos Mistério singular Foi então que vi Como definitiva experiência A doçura da alma As incertas dores E as tantas faltas Os olhos não são espelhos Metonímias Hipérboles Das vidas muitas Em que me perdi E me encontrei em você. Marco Villarta Lavra

Marco Villarta
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De amore
O amor é mosaico completo de incompletudes o que emoldura a paisagem o cimento por entre os vãos O amor é perfeição delicado arremate de todas as imperfeições O amor é absurdo porque contraria as razões Não se explica não se replica em outros peitos como saber do fascínio como repetir em outras almas tanto encantamento Não sabemos o que o amor é amor não é existe em resiliente gratuidade ultrapassa dimensões qualquer que seja a eternidade é sua substância mais que infinito e,

Marco Villarta
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Testamento 3
Envelheço E a dureza fica amena Mais por circunstância Aprendo a arte da espera Respeito a distância das feras Ladeio as trilhas das formigas Cada único lugar Cada estar Desconfio do ser Da estável permanência Sou efêmera presença Sombra fugaz que se esvai Como névoa Ante o primeiro raio de sol Sou apenas E minhas pequenas marcas Dos pés no chão Talvez virem longevos fósseis Quem sabe seja cadinho Das águas de chuva Saciando a sede De futuros bichinhos Destino Não saber dos o

Marco Villarta
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