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Natureza morta

O meio-pão esquecido

 no prato sobre a mesa

A chave de fenda perdida

no vão do armário nunca mexido

a gaveta entreaberta

com seus caóticos pertences

a boca entreaberta

na memória do outro

que tenta adivinhar

a palavra não dita

a hesitação em dar o passo

e o momento capturado

na artística foto

do movimento suspenso

ao mesmo tempo

parado e eterno

a natureza morta

que estica sua espera

de que as frutas apodreçam

que os olhos se cansem

que os pinceis endureçam

da tinta que o pintor

desistiu de continuar usando

o intervalo entre o lento

piscar dos gatos

as asas mal recolhidas

dos besourinhos no jardim

a vida entre duas metades

entre dois pontos

o alinhavo no verso do pano

e entre o início e o fim

o inconcluso poema...


Marco Villarta

Lavras, 07 de abril de 2026

 

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Marco Villarta

Professor universitário, pesquisador, poeta, ensaísta, escritor, tradutor. Doutor em Letras. Nascido em São José dos Campos/SP - Brasil. Curioso pela vida e pelas pessoas, pela arte e pelos sonhos.

Membro correspondente da Academia Jacarehyense de Letras

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