top of page


Sonhos no paraíso
Se vivêssemos no Paraíso (e acaso não vivemos?) Teríamos a dádiva dos sonhos? Mas quais sonhos? Se somos todos feitos Dessa intangível matéria Se a divindade faz haurir De sua solidária natureza A necessidade de compartir A existência com frágeis seres Se vivêssemos em algum dos céus Saberíamos sonhar? Talvez os anjos não sonhem Porque são apenas mensageiros Nós, dialética mistura De longo gradiente, do mal e do bem Acho que sonharíamos, sim Porque é nosso fim Porque é nosso

Marco Villarta
2 de ago.1 min de leitura


Sonho de Federico Fellini
Talvez encontre o Marcello Num ensaio de orquestra Ou na doce vida romana Ginger espera por Fred Mesmo em branco e preto Às vezes falta inspiração Para o filme seguinte A bitola de película antiga Mas a cantiga não cessa A voz vem, talvez, lá da Lua E é na noite da rua Que Cabíria vê, afinal, Que, como a nave, a esperança também se vai tal qual a Julieta nos seus espíritos, no irreal o circense de um mundo às vezes idílico, outras tantas, bem cruel Ao final da entrevista Fica

Marco Villarta
20 de jun. de 20221 min de leitura


Sonho de Salvador Dalí
Vejo tigre em feroz afã Em pequena abelha Pousando sobre uma romã Minha Gala é Galatéa Russa companheira Às vezes atômica Outras, parte de infinitos espelhos Que revisito ao pintar Meu olhar é excêntrico Fragmento as formas Em mais que três dimensões Os frágeis ovos moles Me servem a um filosófico desjejum São metáfora do fluxo das horas De relógios flácidos Que demarcam tempo nenhum Ilusória persistência da memória Pinto narizes que se projetam Escavadas paisagens De surreal

Marco Villarta
20 de jun. de 20221 min de leitura


Sonho de René Magritte
Sob a condição humana Não posso olhar no espelho E enxergar senão meu ato de olhar A face oculta pela traiçoeira nuca Ou por insidioso capuz Não delimito as bordas Dos quadros que pinto E nunca sei se o quadro Ou a suposta cena É que se prolongam na tela Isso não é um cachimbo Se eu desenho ou digo Não há abrigo para a coisa em si A chuva fria e rala lá fora Não me molha nem me assusta São idênticos homens de preto Chapéu coco e guarda-chuva Que as nuvens oferecem Sou eu que

Marco Villarta
20 de jun. de 20221 min de leitura


Sonho de Fernando Botero
Todas as coisas do mundo No fundo são fartas Oblongas, balofas No traçado oblíquo Das redondas linhas Desafia-se a forma canônica Anônima ironia A elegância das cenas Acena para irreal densidade A verdade está nos olhos Que descobrem somente O que podem conhecer Somos latino-americanos E não prescindimos de ser Olhares aborígenes Para nossas próprias origens Para nosso modo de ver O carnaval dos paradoxos Endosso de inacabado projeto De alegre irreverência De ressignificar do

Marco Villarta
20 de jun. de 20221 min de leitura


Sonho de Tarkovski
Disse certo monge Que podemos mudar o mundo Se repetirmos o mesmo gesto Com a paciência De nada esperar Sou água que flui E que, em câmera lenta, Desafia a gravidade Ficando quase parada no ar Também sou aquele stalker Emblema de profética maldição Guiando desilusões existenciais Para zona proibida e irracional Por detrás dos ícones De um genial e obscuro Rublóv Homônimo do infante Ivan Por que temer o rolo compressor Se só o que pode pará-lo é som De impreciso violino O meni

Marco Villarta
20 de jun. de 20221 min de leitura


Sonho de Manuel Bandeira
Os sapos coaxam No funeral que fazem Da poesia, já sem alma Calma, pois não ligo Sou amigo do rei Mesmo que não aqui Onde estamos todos...

Marco Villarta
18 de jun. de 20221 min de leitura


Sonho de Érico Veríssimo
Ouço uma música ao longe Pode ser Clarissa Nas densas névoas do tempo ao piano tocando a sonata Não temo as tantas gerações Que se...

Marco Villarta
18 de jun. de 20221 min de leitura


Sonho de Gonçalves Dias
Sonho que voltei Pra minha terra E que lá as palmeiras Hospedam os sabiás De onde estou As aves que gorjeiam Nem se comparam às de lá Aqui me faltam os primores De céus, de bosques Que divinais sempre imagino Tudo que deixei em minha terra Acho melhor do que vejo aqui Espero contar para meus netos Sobre tantas belezas Sobre heróis da tribo Tupi Meninos, eu vi! E, do além, tenho certeza Ouvirei ao longe Outros cantos Que ecoam meu exílio Até que criticam minha terra E em outro

Marco Villarta
17 de jun. de 20221 min de leitura


Sonho de Machado de Assis
Nas ruas antigas Do Cosme Velho Espiono as janelas Talvez das almas Vejo Bacamarte Vulgo alienado Simão Ir trancar-se no hospício Passo ao largo de Tio Antão Arcado sobre si Procurando os óculos Me esqueço do emplastro E trombo com sisudo cavalheiro Casmurro e ligeiro Temo que se afogue na ressaca Ou, no alto de uma colina, Perca-se nos olhos negros De uma maliciosa Capitolina Aceno com o chapéu Para o traquina Quincas Mas não sei se de mim O pobre se apercebe Quanto chegar e

Marco Villarta
17 de jun. de 20221 min de leitura


Sonho de Lygia
Na praça antiga Com cores cóbreas de sonho Correm meninas As pedras acompanham Em círculos, rodopiantes Venha ver o sol Das grades do mausoléu Ele se põe, infinito No tempo e na morte Na noite escura Somos somente o gato E mais eu. Marco Villarta Lavras, 2016.

Marco Villarta
1 de jun. de 20221 min de leitura


Sonho de Clarice
Está escuro O quarto E maçã e a barata A paixão Viva Líquida Intensa Vidamorte Felicidade ? Escondida num livro Estendida na rede Contrabandeada Secreta. Marco Villarta Lavras, 2016.

Marco Villarta
1 de jun. de 20221 min de leitura


Sonho de Pirandello
Criei seis personagens... Seis personagens Fizeram um motim Reivindicaram seus direitos Dizendo, na verdade, que Eram sete E brigaram entre si Pela autoria do sétimo ... era eu Marco Villarta Lavras, 2016.

Marco Villarta
1 de jun. de 20221 min de leitura


Sonho de Borges
Borges sonhou que era Borges Olhando-se num espelho Borges acordou intrigado Com o que pensou Ver no sonho E perguntou-se, borgeanamente, Se quem acordou Era Borges sonhando ser Borges Ou se Era Borges sendo sonhado por Borges. Marco Villarta Lavras, 2016.

Marco Villarta
1 de jun. de 20221 min de leitura


Sonho de Cortázar
Um homem lê um livro Uma autoestrada Meio cidade Meio metáfora Coelhos saltitantes Pulando quadrados Riscados no chão. Parte de um texto Uma rua em Buenos Aires O homem desce do táxi Entra na sala Na poltrona De costas Um homem lê Sua história. Marco Villarta Lavras, 2016.

Marco Villarta
1 de jun. de 20221 min de leitura


Sonho de Lewis Carroll
Um poço sem fim Um tabuleiro de cartas Um sorriso que persiste No ar. Jaguares e arte Tartarugas e coelhos Um louco de chapéu É a mesma coisa Que o chapéu de um louco ? Um Aquiles que se perde Na corrida imóvel Jogo Lógico ! Marco Villarta Lavras, 2016.

Marco Villarta
1 de jun. de 20221 min de leitura


Sonho de Poe
Entre o aterrorizante Negrume dos gatos E o cálculo racional Dos detetives Recrio os gêneros Da arte e do narrar. Se meu abominável Alter-ego for emparedado Minha alma cessará Num suspiro... Num sonho dentro de um sonho: Never more Marco Villarta Lavras, 2016.

Marco Villarta
1 de jun. de 20221 min de leitura


Sonho de García Márquez
Macondo é meu mundo Encantado e visceral Acaso os parentes mortos Deixam de povoar os espaços Que continuamos trilhando ? O mundo não é maior que A Macondo que sonho Ainda nas madrugadas Achando estar no mar do Caribe. A primeira vez que vi o gelo Ou a nudez de uma mulher São menos importantes Que a solidão sem tempo Que estive a escrever. Marco Villarta Lavras, 2016.

Marco Villarta
1 de jun. de 20221 min de leitura


Sonho de Kafka
Sem nome Sem razão Um gigantesco inseto Sentencia minha sorte Quem sou senão ele Qual crime cometi Ao viver? Marco Villarta Lavras, 2016.

Marco Villarta
1 de jun. de 20221 min de leitura


Sonho de Bioy Casares
Morel inventou uma máquina No fundo da caverna de Moreau No exílio de uma ilha de Platão Será o leitor Mero holograma Serão as sombras na parede Aquilo que vimos ou parecemos? Marco Villarta Lavras, 2016.

Marco Villarta
1 de jun. de 20221 min de leitura
bottom of page