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Sorôco
Passeio pelas cidades E prefiro as pequenas Nelas, gosto das bordas Como quando como Uma torta proibida Para a silhueta perfeita Procuro estradas de terra Transições entre casas E pastos Detenho-me nas ruínas. As prediletas, sempre, São as antigas estações de trem. Na criança que cresceu Sem ter andado neles Ressurge uma memória inventada De apitos De alvoroço de malas De pessoas que chegam E vão. Dois lados da mesma viagem Diz a voz mineira de Milton Mas, para mim, Estação é

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Exotopia
Imagino-me Sentado no banco À beira do rio Talvez o Estiges Quem sabe o Eufrates Temo que seja Aquele em que Borges velho Encontrou-se Com seu duplo jovem Enfim, qualquer rio Pois rios são mudança Dialética amadora, a minha Que vê na transformação Eterna constância De costas para o rio Vejo as pessoas andando Me pergunto De que matéria é feita A carne de cada uma Da erva que nutriu Um esquecido dinossauro De substâncias etéreas De alienígenas origens Ou Simplesmente De dores

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Credo
Já acreditei em deuses Professei liturgias Sofri noites de insônia Por delitos abstratos Hoje creio menos Nos templos de pedra Nas multidões enfurecidas Nos êxtases coletivos Há um quê de divino No humano Talvez Shiva... Há muito de humano Em divindades Persigo um sutil avatar Desconhecido guru Sermos todos Filhos da célula primeira Não deveria Nos fazer irmãos ? Sermos todos Produtos da primeira luz Um só ser... Marco Villarta 2016

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Aracne
Sempre, na infância, Intrigaram-me As caixas de costura Não entendia Como as mulheres Tiravam dali Mágicos movimentos Do bordado Da cesura E do tricô. Hoje percebo Que a mágica Não estava nas caixas Nem nas agulhas Ou apetrechos outros A magia estava Onde um menino Ainda não Podia entender Marco Villarta 2016

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Parassofia
Antes da corrida Aquiles olhou Para a tartaruga Na placidez dos olhos Que sempre lacrimejam E da boca que parece Sempre sorrir Viu a persistência serena A determinação resignada O desconhecimento Da vitória Soube, então, Nunca Iria vencê-la. Marco Villarta 2016

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Anunciação
Alguém distante Evoca saudades Mas o que fazer Com o corpo real Frente a Frente Com a seca humanidade De sua presença As palavras esvaem-se Porque é humano Ter criado Essas etéreas Diáfanas Substâncias pontes Que nos (des)ligam (d)o mundo Os olhos arregalam-se Os lábios contraem-se Nos sonhos Mortos Nos visitam Porque o território Do sonho E Da morte Faz-se do mesmo barro Nessas fronteiras Fugazes Não sabemos o real Se do nosso lado É que existimos Se do outro Somos sonhados

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Passagem
O tempo... ah, o tempo Condenados que somos A migalhas das coisas Metonímias da verdade Tempo são as rugas As dores para além das dores Outras É lembrança de quando As fotos ainda não eram amarelas Ou digitais em pastas recentes a surpresa no espelho do que chega com a lembrança de quem foi do que se vê estranhando-se Perguntando-se Para onde foi ? Tempo Até mesmo as rochas enrugam-se A face do céu se desconhece Os éons se pontuam Entremeiam-se Entre um esquecimento e outro A

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Fogo fátuo
A meia profundidade De uma longínqua poça ancestral Um quê de matéria Juntou-se a outro quê de elementos A solidão do caos A proximidade do indefinido Mutação Desde Um desejo de se fazer prosseguir Gerações Heranças Perpetuação Talvez um instante Em que abstratos desejos Se uniram também Onde os genes da alma ? E nessa alquimia Permanência Fim Onde estará meu cansaço ? Marco Villarta 2016

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Dor
Dores são vida Afinal Somos cíclicos Uroboros A cabeça e a cauda O nascimento e a morte O nigredo e a Pedra Dores são partos De outras dores Talvez Mesmo os sorrisos Sejam dores em disfarce a tensão dos músculos a fixidez das marcas expressão dança de Shiva o saber do Nirvana o desfazer-se de si Dor é saber-se finito Poeira de estrelas Pó que retorna Um sem saber De silêncio e mistério. Marco Villarta 2016

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Reflexão
Quando olho no espelho É seu rosto que vejo Mas quem é você ? Quem somos nós ? Realidade aumentada No não lugar de cada sulco Dos vincos das rugas Dos precipícios das marcas De expressão O palimpsesto Quantas camadas terei que raspar Na superfície do agora Quantas escritas de mim Haverá superpostas Na tintura do tempo... Olhar-me, olhar-nos É ode Éon Íon Eco dos ontens Réquiem Amanhãs Olhar que se vê olhando Metá Pois os olhos se veem Para o além Além de mim Além de nós Além

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


(Na)morar
Para Neusa Cardoso Hoje é dia Mais um dia Porque os dias são todos Plenos De namorar (Na)morar junto Não é escolha É contingência da alma É sobrevivência É urgência de vida. Pois alma não vem inteira Nasce semente Pólen de flor E depende dos ares da vida De um pássaro de fogo Ou de uma abelha discreta Almas se abraçam Entrelaçam espaços Aprendem existir E no encontro de vidas Divide-se o ar O sol pra aquecer As dores e dúvidas O valer a pena viver (na)morar (n) o outro É conv

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Poema
Põe mais amor Por favor Põe o mel dos favos Amassa o pão Promete a Adão Um messias Meneia a mão Macera o grão Dos teus próprios dias Põe a alma Por louvor Dos desamparados Acampados na Terra Desterrados do céu Põe minha memória Na triste história dos meus Uroboros, caduceus Tristes insígnias Cruzes, suásticas Luas cheias Estrelas de salomão Põe minhas dores No verso dos sonhos Na falta de cores Das guerras Põe o mundo Nas palavras e signos Põe-me dormindo No descanso recluso

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Desejo
Que falta faz a fala que o surdo silêncio falha em falar silenciando a falta Marco Villarta 1997

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Réquiem
Minha porta, morta ávida tão torta, sem sorte a vida corte havia... Marco Villarta 1997

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Estradinhas
Tigre agressivo e sensual nas gretas suadas e misteriosas amarelas rajadas negras metralhadora ritual verbo que toca lábios profanos sacerdotisa esfera vulcão estrada lua mítica mãe terra mar brisa de eucalipto rastros no chão origem abelhas num sonho

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Leite
Me esqueci da água nos olhos que derramou pelo rosto e sujou o fogão... Marco Villarta 1990

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Mãe
Para Olga Villarta Somos filhos das dores Somos filhos dos sonhos Gerados Planejados ou não Queridos Desenhados no coração Somos filhos da terra Mãe nossa Mãe de todas’ mães Somos filhos da espera Dos silêncios de antes E dos depois Somos essa incompreensível Semente nutrida Num ventre tão frágil Que além das angústias Carrega a gente Como esperança Difícil saber a simbiose Quem sai e rompe o cordão Para quem gera Há de estar sempre ligado Para além das distâncias Das frases

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Rosa nominata
Para Neusa Cardoso Uma vez em criança Pronunciei seu nome Em sonho Sem saber quem era você Adolescente, Estremeci ao ouvir seu nome Quando nos apresentaram Jovem, já, Esqueci todos os nomes seu corpo toquei Envelhecer Ou velhar, como diz Guimarães, É ter todos os tempos E não reter nenhum Nesse labirinto de todos Os momentos Passados e futuros Seu nome sussurra No meu difícil Adormecer. Marco Villarta 2016

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Pão e circo
Na arena Gladiadores atônitos Rasgam-se Nas bocas das feras A turba excitada Grita Goza Espuma Para as mais violentas feras O sangue tem seu perfume Na tribuna de honra Um procônsul ri Com o canto dos lábios Seu sarcasmo Não se extingue no tempo É de nós, ainda, Que ele escarnece. Marco Villarta 2016

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Masmorra
Tristes tempos... Vídeos de execução Elogio à tortura... Fico pensando no avesso... Na ausência dos calabouços Quem seríamos Se Bach tivesse perecido Ou tivesse seus dedos deformados Se Einsenstein terminasse num gulag Ou Treblinka tivesse sido o destino De Einstein Rói-me a dor de pensar Que outro ser humano Se compraza Com sangue Secreções Excremento Do próximo Que agoniza Sob o escárnio De suas mãos E vista o paletó Ou a farda Como se meramente saísse da repartição Marco V

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura
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