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Utopia Planitia
Sentar no chão empoeirado e olhar para os altos cumes no limite do horizonte era realmente melhor que se sentir claustrofóbico no interior do laboratório de hidroponia. Eram quase seis da tarde e, no 14º mês, as noites demoravam mais para chegar. As duas luas, brilhantes e enormes, muito baixas no céu aparente, refletiam-se no chão silicado daquele vale. Não fosse o traje, indispensável, a impressão era que aquela luminosidade deixaria a pele cintilante, quase

Marco Villarta
5 de jun. de 20224 min de leitura


Agendamento
Marquei encontro com a felicidade na estação de trem. Combinei de viajarmos juntos. Mas tanto ela se atrasou que nem eu, nem o trem, estávamos mais lá quando ela chegou. Marco Villarta Lavras, 10 de fevereiro de 2016.

Marco Villarta
3 de jun. de 20221 min de leitura


A Rosa que Borges roubou de Paracelso
Na epopeia de Gilgamesh, uma serpente rouba-lhe a flor que concede a imortalidade. Devora-a, esgueira-se pelas fendas das rochas e deixa atrás de si apenas o herói perplexo diante de uma perda infinita. Em Borges, o tigre apodera-se do saber existir para dar uma palavra ao poema de Dante. Dante, descobre seu (próprio) desígnio. Ambos o perdem, porque a máquina do mundo é demasiada para a simplicidade de seus perplexos habitantes. O labirinto de linhas dos lugares por onde an

Marco Villarta
3 de jun. de 20221 min de leitura


Antigênese
Seu corpo nu era jovem como a Terra recém criada. A relva rala deixava restos de clorofila nos bichos que passavam, como telas ainda sem secar. Nos olhos que quase se cegavam de tanta claridade, o contorno das formas confundia-se com a profundidade dos seres que se apresentavam. A novidade do existir não tinha inaugurado a fome e a luta entre presas e predadores. Cada paraíso tem sua mecânica e seus mitos. Naquele mundo, destacado dos demais, a intensa perplexidade tecia os f

Marco Villarta
3 de jun. de 20222 min de leitura


Ratos no celeiro
Até pouco tempo eu não gostava de ratos... Pouco contato tive com eles, é verdade... por outro lado, é também correto dizer que os poucos não foram agradáveis. Sempre ratos grandes, ratazanas escuras, cinzentas ou vorazes. Um ou outro camundongo que passasse sorrateiro chegava até a despertar alguma simpatia. Camundongo é simpático até no nome. Além disso, parece molinho, flexível. Quase um bichinho de pelúcia. Do Mickey Mouse nunca gostei. Rato pernóstico, metido a sabichão.

Marco Villarta
3 de jun. de 20223 min de leitura


Uroboro
Era um feriado emendado. Um adolescente vem mais cedo para um final de semana na casa dos pais. Um tempo sem tempo faz prenunciar, num ciclo, o que somos hoje. No ontem o amanhã acontece sob a forma de um impacto. Pressentimento é sentir antes ? É conhecer o que não se pode evitar ? O menino nunca soube dizer. Porque essas coisas não se dizem. O encontro entre os seres são sempre misteriosos. O menino nunca soube o porquê do encontro. No entanto, o que forjou o homem foi o ca

Marco Villarta
2 de jun. de 20221 min de leitura


Anfitrião
Qual era mesmo a sua profissão? A tabuleta de papelão, com letras mal pintadas e escorridas, dizia ser “colecionador”. Na verdade, aceitava, por uns trocados, ir a casas que tinham sido de pessoas que moravam sozinhas. Após a morte, depois dos saques das coisas minimamente valiosas, restavam quinquilharias, sem nenhum valor para quem não viveu cotidianamente a história dos que se foram. Dizia prestar um favor às almas desencapadas (era esse o termo que usava). Que seu trabalh

Marco Villarta
2 de jun. de 20222 min de leitura


Meta
Um homem chega a seu destino quando o silêncio de dentro abraça o silêncio de fora. E nessa calmaria é como que não houvesse tempo. Mas há. Exatamente o impreciso tempo de uma espera sem angústia ou fustigação. Nesse estado, vida e morte confluem para um alívio, um doce não-saber, que já não inquieta mais. Não desassossega. Um homem chega a seu destino quando já não importa se há mais partes do caminho a percorrer. Alguns dirão que é cansaço. Extremo. Terminal. Outros, que é

Marco Villarta
1 de jun. de 20221 min de leitura


Bliêdna*
Pisou o solo amarelecido no poente lento e róseo. Não fosse o seu treinamento, acharia que o aroma almiscarado provinha de alguma rara flor. Mas não havia flores. No horizonte monótono somente rochas e poeira. Apesar de seus músculos ainda fracos, fez o esforço programado e deu alguns passos, observando as marcas de sua bota na fina areia, quase talco, que recobria o chão. O movimento seguinte foi instintivo. Olhou para o céu, mas a semiclaridade do entardecer não permitia ve

Marco Villarta
1 de jun. de 20223 min de leitura
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