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Sapiens
Alguns dizem ter razão Mas razão é objeto raro Desconfio Os pequeninos animais Sejam mais sensatos Pensam com instintos Argumentam com o coração E não inventam A falsa desculpa Não justificam a tortura Não eufemizam a exploração Marco Villarta 2016

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Arquiteturas
Kubla Khan construiu O magnífico palácio Em sua capital, Shangdu. Muros em ruínas Foi o que restou Mas Coleridge Em êxtase Sonhou ser Xanadu No poema que nunca completou. O segundo templo de Jerusalém Presença da ausência Contraparte feminina De deus(es) e homens Metonímia de um muro Lamentos Atlantes de Platão Perderam-se no tempo Da destruição de sua cidade E da obsessão dos pósteros. Pessoa olha para a tabuleta da tabacaria O edifício de tantas linguagens Cessará no tempo

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Lição
Com o passar dos anos passei a pisar com cuidado pelo temor de esmagar as formigas Receio, nas árvores, o destino das folhas, me enternece o olhar perplexo dos bichos Padeço, até, da ideia de que as rochas possam saber quem são Com o passar dos anos Compartilho da finitude sou solidário à perplexidade dos seres outros de existir. Marco Villarta 2016

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Épica
De Ulisses dizem que foi herói por seus muitos ardis Hércules nem era deus mas os trabalhos que fez... Imagino o primeiro herói Que soube olhar para o mar E enxergar A aflição metafórica de todos os homens. Marco Villarta 2016

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Fronteira
Vivo nos entrelugares em alguma aresta entre algum tempo e muitos espaços Olho para as teias Incansáveis aranhas Serão realmente menores que eu? Marco Villarta 2016

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Oxímoro
O avião taxiava Vi uma borboleta Perto da turbina Voando incauta Primeiro Temi por sua sorte Depois sorri Bela ironia Tanta leveza Zombar De nosso Desajeitado esforço de Voar. Marco Villarta Lavras, 15 de abril de 2016

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Argos
Cansaço. A força do corpo Que quase não existe mais. Olhos de névoa Esticados Distantes No tempo da espera No horizonte da praia. Vagas memórias Brincadeiras Caçadas Fruir a simples presença Um do lado do outro Sem emitir Qualquer som. Coração batendo mais forte Após cada retorno. Sensação de abandono De nunca mais ver voltar Mas o cheiro ainda não engana E um último arfar Lento e profundo Da derradeira alegria. A morte que chega Não terá sido em vão. É Ulisses voltando. Marc

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Luzes
nas fotos que tiro finjo controlar a luz tento captar a cena minto escolher um ângulo nas fotos que tiro apenas imprimo vaguezas rascunho suspeitas esboço visadas. Sempre olho pra elas sinto que vejo espelho capturo meu gesto acredito aprisiono minha alma Marco Villarta 2016

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Psiquê
Eu que sou outro vi uma imagem no espelho se aquele que vejo sou eu então o que olha é um outro como posso me reconhecer se não sou eu que me enxergo? E como posso achar que olho se sou visto por alguém não conheço? Nesse estranhamento caleidoscópio percebi que nem eu nem meu outro eu existem dentro ou fora do espelho há é a distância os olhos (des)enxergam somente de longe ainda que não saibam o que v(e)em... Marco Villarta 2016

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Perseverança
Já quis morar em Marte Para ser Reinício Outro eu Desencanto Distópica fuga Misantropia Já não estou tão certo Já não quero mais Se quiser a ambiguidade De pisar outro terreno Apreciar, no céu, O pequeno ponto azul Já me basta a arte Ou qualquer linguagem Pois sabemos não do mundo Mas de nós, Como o concebemos Posso ir para qualquer desterro Alguma Desterra Lugar nenhum Posso ir até Nada Pois aprendi a fazer turismo No fascínio dos paradoxos Nas perguntas sem resposta Nos eni

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Canção de meninar
Para Melissa Villarta Cardoso Nana, menina Que mamãe Não vem mais Na doçura Do seu mel Dorme, menina Que o dia Já vem já Não tem ogros Nem monstros Na escuridão Nana, menina Papai Inda tá aqui Nana, menina Olhos tristes Pergunta no ar Papai também Não sabe E só pode Te abraçar. Marco Villarta Lavras/MG, 05 de julho de 2021.

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Angelus II
Diz uma incerta teologia Que a alguns anjos É dada a oportunidade De se fazerem humanos Para poderem amar E, se bem sucedidos, Voltam às esferas celestes Enriquecidos Plenos Sabendo das maravilhas E das angústias De unirem-se ao ente amado Tendo o abismo De corpos diferentes Mais do que entender Os humanos Esses anjos fundem-se Em Deus Porque já não lhes importa A própria sorte A eternidade pode ser um som contínuo Talvez melancólico Mas pode ser, também, O momento de sentir-

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Itinerário II
Não sei fazer poesia Mas sempre fui ledor voraz Diz Borges ser o autor Leitor mais esperto Que se antecipa em escrever Mas minha história é longa Me (des)achei primeiro em Machado Aquele de sobrenome Assis E mergulhei no sombrio mundo de Poe Corvos, poços, gatos pretos, pântanos Foram cenário para sonhos tensos E para descobrir jogos com o narrar Com Borges me vi em labirínticos espelhos Ora como Minotauro, Por vezes, como Teseu Identifiquei minha solidão Nos mais de cem anos

Marco Villarta
4 de jun. de 20222 min de leitura


Temperatura
Traiçoeira memória Sempre invasiva Desdenha do tempo Tempera a mente Ignora as dores Parece cúmplice dos sonhos Inimiga do sono Limiar da loucura Lembrar-se da aflição Às vezes é passado Mais ainda, é futuro Desconfio ser sem horas O relógio que mTraiçoeira memóriaSempre invasivaDesdenha do tempoTempera a menteIgnora as doresParece cúmplice dos sonhosInimiga do sonoLimiar da loucuraLembrar-se da afliçãoÀs vezes é passadoMais ainda, é futuroDesconfio ser sem horasO relógio que

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Revelação
Sempre ouvi dizer Haver pote do ouro Ao final do arco-íris Sempre duvidei Nunca tentei descobrir O arco se move Junto com os nossos passos Hoje, ensimesmado, Cismo que é metáfora Sempre foi Nossos ouvidos tolos Não se deram conta... É o próprio tempo O impreciso tesouro Fugidio, inalcançável... Marco Villarta São José dos Campos/SP, 27 de agosto de 2021.

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Antissilogismo
Sinto falta dos que se foram Mas, se foram, por que ainda Estão, intensos, dentro de mim ? Há pouca lógica nas coisas Do humano acontecer Ou, pior: somos, mesmo, Cegos guiando cegos Frente a um abismo qualquer... Marco Villarta São José dos Campos, 27 de agosto de 2021.

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Centrífuga
Alçar-se às alturas Saber da profundidade dos abismos Suportar a monótona planura Dos desertos, das savanas Estéreis terrenos do existir Perder o fôlego na queda sem fim Do poço que atravessa dimensões Hei de encontrar um físico amigo meu Meio Merlin, meio Hudini Que, sussurrando bem baixinho, Me conte de algum buraco de minhoca Quem sabe um poeta doido Ou amalucado crítico da literatura Que me conte onde Borges viu o Aleph Ou Drummond vislumbrou a máquina do mundo Quem sabe

Marco Villarta
4 de jun. de 20222 min de leitura


Fenomenologia
Invisível O amor nasce na fresta Indizível Marco Villarta Lavras/MG, 14 de agosto de 2021.

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Nenúfar
O que é a saudade ? Tempo sem tempo, Espaço de tempo vazio Da presença de alguém Tempo que se prolonga No espaço vazio Do que já não é E só se percebe No olhar contemporâneo Porque passado e futuro São adjacências da visão Não existe atrás, ou em frente Coisa que não há é o antes e o depois Estamos somente aqui e agora Somos somente presentes Aos voláteis atos de lembrar Ao efêmero esforço de sonhar E o fazemos juntos Mas sem perceber Porque saber é já desconhecer Refazer o q

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura


Estrato
a que distância a morte nos deixa dos rituais diários das celebrações das datas comemoradas a que distância o tempo nos deixa do instante perdido do gesto que se rompe no desbotar da memória a que momento o espaço nos remete saudade é lugar nenhum presente em todas as horas difuso em todos os passos a que momento o espaço nos conduz para certezas fluidas para um perder-se nas sombras na cor ilusória da água na perplexa transparência dos líquidos que somos que fomos que não sa

Marco Villarta
4 de jun. de 20221 min de leitura
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