Testamento
- Marco Villarta

- há 3 dias
- 2 min de leitura
Tais quais os labirintos sem muros, nem paredes dos arenosos desertos
O cansaço de errante viajor pelas desoladas desplanuras do mundo
Faz mais que as dores do retesado corpo ou de indefinido sopro de vida
A parte de muito antiga alma, vacante em inconsciente peregrinação
Faz parear com as porosas pedras, com as estagnadas, limosas águas
De pútridos pântanos, de insalubres, pestilentos, mas invisíveis miasmas
O ar que respiro já quase não anima o impreciso barro de que fui feito
E se há luminescência nos olhos sonolentos, já não reverbera para o interior
A audição claudica, e a voz, rouca e intermitente, faz cada vez mais absurdos falsetes
Não sei qual dos órgãos hospeda as insistentes memórias, as cicatrizes do tempo
Desconheço se temos um relógio cujos ponteiros marque os trajetos descontínuos
Ou tresloucada bússola, sequer sem agulhas, indistinguível em sua avançada oxidação
Sei que divirjo dos meus costumeiros versos, tão curtos, sintéticos, fragmentários
E que, pouco zeloso, sei também que neste poema exagero, adjetivo demais
É que a cadência do entregar-se aos ventos sem direção, aos erráticos pulsos disrítmicos
Requer que o fio da vida se estique qual bala puxa-puxa, na esperança de não se romper
Quando jovem, me provocava a supostamente oculta resolução de paradoxos ancestrais
Hoje olho de esgueio, e me esgueiro na contemplação de sua impossível resolução
E se encontro beleza também nas formas bizarramente abissais das espécies pouco canônicas
Talvez seja porque a beleza ou a feietude eu não as veja na enganosa ideia das coisas em si
Sob as mais diversas formas, cada outro, humano ou não, é sempre implacável espelho
E, ao contrário, não desvela, não revela o maroto subterfúgio de alguma pirracenta essência
Ao invés, a fluidez das muitas camadas de que o mundo ousa ser composto
São incomunicáveis a partir de um único ponto de vista, distópica humana ilusão
O ilimitado talvez seja muito mais do que um escultor ou pintor cubista
Deixando aos muitos rios, metafóricos ou não, os borbotões de fluíres sem direção
E nesses pensamentos abstratos, nesse delírio de ser tão relativo em tão absoluta solidão
Me avizinho dos matos renitentes nas frestas de ruínas esquecidas, em desolados sítios
Me irmano aos impertinentes insetos em sua luta contra as línguas ágeis de sorridentes répteis
Que com seu olhar vivaz talvez saibam mais do mundo apesar de pouco terem do nosso ofício
Dessa estranha mutação que nos acostumamos, com ar superior, chamar de intelecto
Sinto o afeto dos tímidos e fugidios saruês, do lento piscar dos bichos-preguiça
Ou dos aéreos dinossauros que sobreviveram na forma de perplexas galinhas de quintal
Afinal, no fundo das mais estreitas angústias, dos cânions de desesperado abandono
Talvez o que mais se assemelhe ao que rumino seja um instintivo ciscar
Da superfície que comigo convive no duro solo que sustenta meus passos trôpegos.
Marco Villarta
Oliveira/MG, 12 de outubro de 2025.



Comentários