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Testamento

Tais quais os labirintos sem muros, nem paredes dos arenosos desertos

O cansaço de errante viajor pelas desoladas desplanuras do mundo

Faz mais que as dores do retesado corpo ou de indefinido sopro de vida

A parte de muito antiga alma, vacante em inconsciente peregrinação

Faz parear com as porosas pedras, com as estagnadas, limosas águas

De pútridos pântanos, de insalubres,  pestilentos, mas invisíveis miasmas

O ar que respiro já quase não anima o impreciso barro de que fui feito

E se há luminescência nos olhos sonolentos, já não reverbera para o interior

A audição claudica, e a voz, rouca e intermitente, faz cada vez mais absurdos falsetes

Não sei qual dos órgãos hospeda as insistentes memórias, as cicatrizes do tempo

Desconheço se temos um relógio cujos ponteiros marque os trajetos descontínuos

Ou tresloucada bússola, sequer sem agulhas, indistinguível em sua avançada oxidação

Sei que divirjo dos meus costumeiros versos, tão curtos, sintéticos, fragmentários

E que, pouco zeloso, sei também que neste poema exagero, adjetivo demais

É que a cadência do entregar-se aos ventos sem direção, aos erráticos pulsos disrítmicos

Requer que o fio da vida se estique qual bala puxa-puxa, na esperança de não se romper

Quando jovem, me provocava a supostamente oculta resolução de paradoxos ancestrais

Hoje olho de esgueio, e me esgueiro na contemplação de sua impossível resolução

E se encontro beleza também nas formas bizarramente abissais das espécies pouco canônicas

Talvez seja porque a beleza ou a feietude eu não as veja na enganosa ideia das coisas em si

Sob as mais diversas formas, cada outro, humano ou não, é sempre implacável espelho

E, ao contrário, não desvela, não revela o maroto subterfúgio de alguma pirracenta essência

Ao invés, a fluidez das muitas camadas de que o mundo ousa ser composto

São incomunicáveis a partir de um único ponto de vista, distópica humana ilusão

O ilimitado talvez seja muito mais do que um escultor ou pintor cubista

Deixando aos muitos rios, metafóricos ou não, os borbotões de fluíres sem direção

E nesses pensamentos abstratos, nesse delírio de ser tão relativo em tão absoluta solidão

Me avizinho dos matos renitentes nas frestas de ruínas esquecidas, em desolados sítios

Me irmano aos impertinentes insetos em sua luta contra as línguas ágeis de sorridentes répteis

Que com seu olhar vivaz talvez saibam mais do mundo apesar de pouco terem do nosso ofício

Dessa estranha mutação que nos acostumamos, com ar superior, chamar de intelecto

Sinto o afeto dos tímidos e fugidios saruês, do lento piscar dos bichos-preguiça

Ou dos aéreos dinossauros que sobreviveram na forma de perplexas galinhas de quintal

Afinal, no fundo das mais estreitas angústias, dos cânions de desesperado abandono

Talvez o que mais se assemelhe ao que rumino seja um instintivo ciscar

Da superfície  que comigo convive no duro solo que sustenta meus passos trôpegos.

 

Marco Villarta

Oliveira/MG, 12 de outubro de 2025.

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Marco Villarta

Professor universitário, pesquisador, poeta, ensaísta, escritor, tradutor. Doutor em Letras. Nascido em São José dos Campos/SP - Brasil. Curioso pela vida e pelas pessoas, pela arte e pelos sonhos.

Membro correspondente da Academia Jacarehyense de Letras

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