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Lacunas

A(r)dor do que me falta

Queima algo mais interno que peito

Algo mais antigo que alma

Ausências do que não vivi

Os idiomas que não falei

As frases e sussurros que não pude ouvir

E em cada pedaço do que não experimentei

O incerto do futuro dói ainda mais

Porque há pretéritos que se multiplicam

Passados que se traçam

linhas paralelas que, ao invés

da trivial e humana geometria

se entrecruzam em confusos novelos

e os gatos divinos apenas miram

maliciosa recusa de engruvinhar

o que já não tem como se desfazer

viver ou morrer são faces de obscuro espelho

escaravelho em futuro renascer

semente apodrecida no doloroso falecer

e a vida descontínua

descortina em farrapos

as lacunas do que foi de uma vez

do que ainda está por vir

do (im)possível terreno do saber

Como reter as presenças que já não estão

como antever em que buracos colocar os bilhetes

de amor

de dor

(des)pe(r)dida

direção.

 

Marco Villarta

Lavras/MG, 16 de novembro de 2022.

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Marco Villarta

Professor universitário, pesquisador, poeta, ensaísta, escritor, tradutor. Doutor em Letras. Nascido em São José dos Campos/SP - Brasil. Curioso pela vida e pelas pessoas, pela arte e pelos sonhos.

Membro correspondente da Academia Jacarehyense de Letras

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