

Uranos
Numa língua estranha vislumbrou o passado enterrado em tantos véus no jeito como viu andarem os desconhecidos peregrinos reconheceu as batidas no próprio peito e por efeito dos fragmentos de memória viu-se como tantas faces sentiu a dor de suas tantas mortes e só foi por sorte que resistiu a tanto desalento em sobrepostos tempos Ouviu baterem palmas e pisarem o chão no ritmo com que a dança do começo e do fim faz círculos com todos os convivas dessa estranha estação a nave at


Olhos seus
No mundo que vejo É seu olhar que penso Estar ainda captando As cores, os brilhos Na minha memória Confundo as lembranças Minhas, suas, nossas Por que labirintos vagueio E me esgueiro por tais Escuros vãos, Movediços chãos? Marco Villarta Lavras, 21 de outubro de 2022


Inquisitio
Quem não ? Nunca ? Ninguém ? Nada ? Negativas certezas subtraídas razões O outro é o outro do espelho Mas se olho, sou eu Mas se vejo, sou avesso Desse verso mistério de achar-se perdido no que penso encontrar Sou música surda tela sem pintar o rio que flui monótono no inexoráravel existir escravo do movimento parado em se transformar sou sendo a contínua pergunta a dúvida, que, suspensa, não me deixa saber-me de mim nem sequer ser outro que não seja o vazio de não se complet


Inventário
Trâmites pós-funeral. O silêncio da casa. Agora não só para ele. Finalmente, tinha passado a fazer parte dos surdos murmúrios diários. O remexer das pessoas pretensamente próximas (afinal, qual a escala da distância?). Arqueologia confusa essa de desmontar o âmago. Um quê de profanação. Muitas gavetas, fotos aqui e ali. Objetos antigos. Apego? Um receio de se livrar das memórias talvez grudadas nas pequenas bugigandas guardada


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