

Anjo
Anjos são perfeitas criações de muitos tipos uns, mais poderosos outros, de asas quebradas E que anunciam grandes eventos E quase participam junto Da própria criação Há os anjos com causas perdidas Acompanhando tortas estradas Vendo o humano se desencaminhar Há, porém, um tipo muito especial Os que, discretos, nem ousam saber De sua natureza celestial São os que curam as almas feridas Os que permitem à fé poder voltar Velam junto aos leitos sofridos Onde as almas tentam se re


Varal
Penduram-se os lençóis Penduram-se os sonhos Tristonhos, alegres Penduram-se lágrimas e também os roucos suores Penduram-se poemas Fragmentos da vida A quarar no sol Aquarela, quimera Flor de gelo Que evanesce no verão Penduram-se sapatilhas Da filha bailarina Que, peregrina, Para outros voos se foi Penduram-se esperanças Lembranças de ontens Memórias consentidas Ou nunca divididas Com quem se prende a paixão Penduram-se versos Tortos, no avesso das coisas No reflexo das somb


Mito(a)gonias
As moiras tecem humanos destinos Lúgubre trindade que regula o fio do existir Penélope destece nas solitárias noites Na inacabada mortalha, na dor da espera Não basta a perfeita tessitura de Aracne Ante a soberba invídia de Atená Não me fio no que os deuses podem urdir Nem nos labirintos com que ousam confundir o engenho humano, que com não pouca angústia fustiga o infinito em Olimpos quaisquer instinto de iludir a frágil e fugaz finitude achando que Ariadne pode, quem sabe,


Epitáfio de um negro corpo
O corpo negro jazia no chão Não era singular Era coletivo Um metonímico plural Naquele corpo, Em cada corpo Outra metonímia Insígnia da morte Pouca sorte de quem Nada tem De quem subsiste Inexiste Na diária economia do medo No arremedo de vida Nas migalhas compartilhadas Com os cães O corpo de um preto Retinto no rigor mortis Nos negros sacos funerários Na negra escuridão Da obscura indiferença Os ancestrais e seculares grilhões Continuam ali Nos morros Nas vielas Nas subcida


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