

O sono dos cães
Ao Pedrinho e à Melissa Desde criança, almejava compreender o pensamento dos bichos. Não tinha morado na roça. Mas a cidade, naquela época, era um centro calçado de pedras em volta da igreja, algumas ruas de terra no entorno e uma imprecisa divisa entre uma picada, rua mal traçada que o mato teimosamente invadia, e os pastos sem cerca. Era quando saía da escola. Almoçava correndo, tirava o uniforme, vestia – muitas vezes no avesso – o calção cáqui (era assim que chamavam na


Urdume
Haverá no avesso dos versos Submersos endereços Onde as almas se encontram? Será a mesma eternidade Do menino que pensa Sempre estar ali O sonho doce da padaria da esquina do velho que sente fluida a contínua vida para além de todos os tempos e de todos os cantos? Serão as perguntas As respostas que já temos Mas nos esquecemos onde guardamos E por isso precisamos Fuçar nos bolsos das roupas No profundo das gavetas Que ainda não arrumamos? Será a existência Um intermitente pul


Equidistância
Entre o ponto Em que me encontro E o ponto Em que me conto Há a distância De duas vidas Ambas, reais Em uma, invento o que sinto Em outra, intento o mundo Onde penso estar. Marco Villarta Lavras, 13 de maio de 2023


Escala
As desmedidas dores No geral, são contidas Por serem tão profundas Não transbordam Do sem-fim em que se afundam Quando são expelidas São inaudíveis gritos Para muito além dos físicos ouvidos Dores não se nomeiam E nem há realmente quem as quantifique Rompidos os diques que as contém Ninguém as vê, Ninguém as sabe Entre nós todos Entre cada um Há intangível espelho Há indevassável abismo Entre o que sonhamos E o que perdemos Há as escuras noites E as esquecidas sombras As não


%201.png)







